Diferente do que as pessoas acreditam é difícil aceitar a derrota.

Diferente do que as pessoas acreditam é difícil aceitar a derrota.

A vitória é a trajetória mais fácil e inerte da continuidade. Você segue e segue

até que um dia chega. O contrário é de um nível de esforço pessoal diferente

Mora na capacidade de se perceber e se aceitar 

Não é pra qualquer um e não deveria ser 

Até hoje conheci apenas um verdadeiro perdedor

E ele me acena do espelho incapaz (assim como ele mesmo é)

de resistir ao peso indelével das coisas do tempo

Um eco em silêncio repetindo enquanto houver testemunha 

parabéns, você é um fracassado

Poucos chegam até aqui

E eu não sorrio, não comemoro, não me inspiro

Falhar é um destino profetizado

e nunca precisei fazer nada para alcançá-lo

Além de existir.

Ode to all lonely realizations

It doesn’t really matter if I go through my deep unconventional intuitive library of fully created expressions based on colours, scents and delusions and thoughts someone has already worked on and also stars and strange tonalities found all around the known universe and the unreasonable advert noisy unknown space

Because somehow hours will tell, and I struggle relentlessly with anxiety and paranoia not to count minutes and seconds while I hear their clicks and clacks all the time

But it doesn’t matter, somehow time will tell

It doesn’t really matter the free diving into the abyss of angst paired with crumbled lungs and loosen legs and tired arms and red eyes while working on that impressive gimmick of acting I’m not afraid, but I am afraid, I have already told you that I am afraid, but so it seems that being afraid does not mean the shame to me nor to you, as I realize you might be more part of the world than I previously (and currently still) believed or ought to believe

Because somehow time will tell

For the only form of presence aside of me being around for every crumble of bread along the paths and downpours amongst the living unconscious maze, and although I do sometimes feel parts of moving essence flowing within like I’m formed by hundreds of dozens of thousands of millions of infinite jests and filaments I

actually
feel abandoned and empty and this stuttering scattering terrifying realization of none
comes along the way and it always does

Because somehow time will tell

Somehow you’ll end up being a profound egomaniac creature finding yourself to be better than most just for knowing how corks and gears function and how reality is an ugly amalgam of  horrible fakery and heartbreaking certainties and uncertainties
and

Somehow you’ll end up being a deep lost minuscule dusty fragile being finding yourself to be worst than the most insidiously insipid and intangible nothingness bathed on worthlessness for just not knowing what the fuck there is to do in this soul crushing world

and then you just realize
not only one single so said loving caring interested reasonable emphatic conscience cares

and the marks you carve into your own arm are getting longer and deeper
and the nights you stay awake fighting hallucinations and nightmares are filling your weeks

just as days you sleep endlessly trying to go into full comatose mode because you don’t want to be disappointed any more

alas fuck you I feel no hope I should feel only rope

Somehow time do tell.

Ode ao infinito

Talvez eu precise de alguma maneira revisitar esse velho amigo chamado fluxo pessoal de consciência, que apesar de ter bicado pedaços de carne de outros cadáveres juntou tudo com base numa tragédia dramática e ridícula completamente individual. Trabalhar com ele significa atender (e permitir que) uma série de requisitos sejam devidamente considerados, sendo a melancolia a constante irreparável, mas a falta de fôlego a repetição de compasso sem ritmo a capacidade de deixar várias vírgulas de lado como se fossem degraus de uma escada imunda e houvesse pressa pra chegar no alto do prédio mais alto antes de chegar definitivamente ao chão.

Talvez acessar esse estado específico seja da mesma natureza que um ritual e o altar sejam as coisas despedaçadas que eu guardei de e pra mim mesmo nos reflexos mortos por onde os vultos psicóticos caminham de madrugada nos cantos dos meus olhos, e eu admito, talvez eu voltasse a fumar se já não tivesse preguiça de ter de parar mais uma vez mais uma vez.

Revisitar essa condição é reconhecer um piano antigo abandonado no quarto dos fundos do manicômio onde dormem todas as abstrações, os desejos e amores falidos e se encolhem debaixo do estrado das camas cheias de piolho e pulgas esperando por noite mais quentes e fogem durante a manhã rezando de maneira débil por dias mais frios e validações mais repletas de delicadeza e sobriedade. Só que é o lugar onde as poucas coisas boas de mim escolheram pra apodrecer, e eu vou lá com minha roupa esburacada e aceito sim a água escura pra correr pelas veias, estico os braços e me acomodo na maca quebrada que serve de banco e toco uma melodia sem dó nenhuma durante dez dias e dez noites enquanto o mundo continua andando pra frente, pra trás e pros lados do lado de fora, enquanto as luzes são desligadas e os murmúrios cheios de segredo são dispostos transversalmente na lateral daquele trauma junto da esquina onde os joelhos perderam os tampões.

Esse exercício não serve como terapia, mas como aquele momento em que o arame farpado pula de pedaço em pedaço dos nós e caroços dos músculos e traz a insanidade merda que dói tanto enquanto o organismo permanece vivo. Por detestar a dor o masoquismo é a consequência mais lógica do baile esfarrapado de desculpas por onde passam as lâminas e as piores memórias que chutam com toda força as costelas às três da madrugada, e foda-se quem precisa realizar qualquer coisa, se é que é possível de se realizar qualquer coisa, se é que se é capaz de fazer qualquer coisa.

Às vezes eu me pergunto sobre a sensação aparentemente interminável de estar entre o chão e o céu quando eu me pego pensando em me atirar de um prédio. Aí vem a surpresa. Se o prédio for baixo demais, você estará lá pro durante e pro depois. É um método que eu não escolheria, porque imaginar alguém raspando o chão usando espátula e água sob alta pressão porque eu quis acabar com meus problemas e das outras pessoas ao deixar de existir e consequentemente deixar aqueles rorschach de borboleta e ovogonia de um amor impossível pintadas de vermelho e concreto rachado. Se for pra ser uma obra de arte melhor decompor silenciosamente as piores coisas do mundo em palavras.

Eu permaneço parado contra o atrito anormal do universo inteiro que passa gritando e me arrastando na contramão. Não sei fazer outra coisa. Não sei sentir outra coisa. Não sou outra coisa. E eu pego meu chapéu furado que meu eu estuprado de quinze anos atrás ainda se contenta com esperança de belas melodias, passo os sapatos sem sola no carpete melado de aspirações e outras porcarias que eu devo ter pisado e trouxe da rua, visto meu paletó cheio de traças e volto pra vida normal.

O mundo é um lugar melhor quando eu me tranco em silêncio longe da fumaça dos carros e fico me afogando desastrosamente em autoflagelação e dúvidas incipientes. Amanhã vem a nova decepção, o detalhe de permanecer vivo, esse detalhe circunscrito que veio ferrado de fábrica, porque eu não me sinto vivo, e eu dirijo durante horas de faróis apagados gritando até a voz se transformar num chiado febril que se mistura com o pneu murcho e o asfalto, e eu sinto muito por ser tudo aquilo que nem eu mesmo queria ser, quanto mais o resto da existência.

Eu me contentaria em ser a partícula abstrata que criaram e logo depois mudaram de ideia só pra descrever todas as coisas que flutuam nas sarjetas. A partícula do absurdo.

Mas não há mais tempo, não há mais nada. Com amor,

ode ao infinito.

Sem assunto (ou para M.B.)

Eu queria saber te ler de novo.

Queria que as coisas fossem antigas e novas
que dessa vez fosse eu quem decidisse falar contigo
e insistir no meio de um assunto inacabado de uma conversa
que só perdeu o ritmo.

Eu queria saber como funciona a ordem natural das coisas
e conseguisse chegar até onde é preciso com a mesma facilidade
que eu chego até o farol no final da estrada afogada pela areia tentando reivindicar
seu espaço natural.

No final das contas a gente internaliza pretensiosamente
o movimento regular das ondas no mar, as gotas d’água secas que marcaram o vidro do carro
as águas-vivas refratando nuvens e coisas absurdas, como o roxo que você tanto odeia,
os planos que a gente faz desejando um futuro inversamente proporcional a quão horrível a vida foi até então enquanto atravessa a rua e percebe que o sinal acabou de abrir

No final das contas a gente perde muito tempo de processo incessante dando voltas
e esquece da simplicidade supostamente insignificante que mora nos materiais de limpeza, no pó do grafite, do silêncio que interfere com milhões de decibéis enquanto o barulho de uma semana corrida tenta abafar e deixar tudo pra trás
e acaba afogado na tensão superficial de tanta coisa irrelevante. Falta interpretação de texto nas coisas que a gente precisa dizer.

E às vezes tem tanto amor e saudade nas coisas que a gente quer dizer
Que a quilometragem desproporcional do relógio parece a marcha de um milhão de elefantes mecânicos até o fim do mundo.

O elevador perdido rumo ao infinito
O quase atropelamento na avenida de quase todas as manhãs
O chocolate derretido, a coca-cola quente, aquele freela muito mal pago que eu acabei de entregar.

Mas de alguma maneira a gente nunca esquece. Sempre vai estar lá, em Buenos Aires, em Medellín, no casa-você.

E seria maravilhoso que a vida não fosse injusta
E seria fundamental que todo esforço valesse a pena
Ou fosse eficiente.

Mas soterrados sob a pressão da atmosfera
será que não há mesmo o que possamos fazer?

Adoraria pegar o bonde pro trabalho e escolher vinho
dançando tango na ponta dos pés

E é quando eu percebo
que eu gosto mesmo de você.