O casarão e o campo 

Te sinto ao longe

Tão distante que meus olhos já não te veem 

Na borda de onde as linhas se tornam perspectivas convergentes em um ponto rumo a um falso infinito visual, ofuscando quem ou o que se aproxima

E o que me resta é sentir sua distância

Uma distancia que meus braços não alcançam e minhas pernas não dão mais conta 

Uma substituição pelo que vale a pena, milhas ao longo do caminho

Como se a miragem do passado fosse um eco não resolvido do presente 

Que continua soando junto das cigarras na grama alta e nas mariposas se chocando contra a luz amarela superaquecida na varanda

O apito da surdez que vem depois da explosão 

Depois de anos em meses 

E do esquecimento em dias

Porque as palavras já não alcançam o outro lado da rua

E, perdido, o sentimento poderia atravessar o mundo sem nunca se encontrar

Que assim como eu

Não consegue achar caminho, e nem se encontrar

Distante como fantasmas apagados de medos paralisantes

O rastro do vulto do relógio

Respiração fraca debaixo do chuveiro

Essas coisas que se chocam por dentro contra o peito

Inacabado, como o casarão abandonado ao longo do campo.

Linha reta

Gostaria de dizer que te quero

Como se o meu querer fosse um feitiço, uma partitura completa, uma ordem universal, uma lei ditatorial, um absurdo sem regras.

Gostaria de dizer que te quero nos meus olhos, no teu corpo, teu ouvido, tua falta de ar. De que estivéssemos mais uma vez perdidos e achados entre nós e em nós.

Gostaria de dizer coisas irracionais a respeito do meu querer, um fluxo primitivo de verdades imperativas.

Gostaria de dizer que quero mais 5 minutos, mais 5 horas, anos, décadas, com você

Uma linha reta que começou por caminhos tortuosos.