Enrascada

Parece que eu me meti numa rotina daquelas. Daquelas situações difíceis de todo mundo, aqueles sacrifícios diários pra não pensar na cor do asfalto, pra ganhar dinheiro, pra ficar no trânsito, pra pagar o aluguel, pra encher o prato. Parece que é assim que as coisas funcionam, e não é que me tenha custado a entender, não, não me leve a mal. Mas é que a minha cabeça é um quarteto de jazz tocando 24/7 umas músicas que ninguém compôs e estão dependendo das aulas de trompete que eu disse que faria semana que vem dois anos atrás. E agora também tem o barulho do cigarro queimando em condições ideais de pressão, altura, umidade, temperatura, concentração e tristeza pra brasa arder com aquele som desgraçado que chama o seu nome num sibilo arrastado. Porra. Eu parei de fumar pela terceira vez. Me dá um tempo.

Eu queria te contar essas coisas também. Minhas metáforas diárias, meus monólogos abafados dentro do carro de vidros fechados, minhas caminhadas com o cachorro, minhas noites perdidas. Queria te contar que eu fiz aquela tatuagem e mais 4. Queria te contar que eu tô pensando em largar tudo pela vigésima oitava vez (só nesse ano). Eu fecho os olhos e paro na frente do seu prédio com os faróis baixos. Billie Holiday tocando baixinho. Não, não. Bem alto. Incomodando os surdos. Você desce sorrindo, abaixa pra caber no carro, quase bate a cabeça. Ajusta o banco, coloca o cinto.

Você sempre quis ir pro Atacama. Você estaria com o mapa. Caralho, como eu te amo.

Eu abro os olhos e lembro que você foi de um jeito que não tem mais volta.

Parece que me meti numa rotina daquelas.

13 de julho

Não sei bem o que eu ando fazendo ou o que se tem pra fazer “de verdade”. Ontem pra hoje eu não dormi, então o dia tá sendo esse baile de 36h (até agora) de quem não quer dançar, mas dança mesmo assim. Eu respiro pessimismo, eu acho. Ou talvez só evite ser otimista por excesso de exemplos contrários. Vai saber. Hoje eu pensei em voltar a fumar, e não seria difícil. Eu mantenho um maço e um isqueiro juntos da mochila do trabalho. Não é difícil. Pelo menos isso não é difícil. Eu fico querendo coisas menos complicadas, tipo pôr-do-sol, passear com o meu cachorro às 17h e ver os carros passando. Fumar Marlboro em Paris debaixo da chuva esperando minha companhia pra noite descer e dizer que não é nada pontual mesmo sendo natural de Londres. Eu quero coisas do tipo te dar um beijo ou saber pra onde ir.

Mas eu não fumei hoje. Talvez amanhã.

Existe esperança?

 

Dolphin Hotel pt 1

O Dolphin Hotel sempre me chama nos meus sonhos. De alguma maneira eu sempre acabo andando por entre suas paredes antigas. Sempre ouço o zumbido inexplicável que fica suspenso no ar. Mesmo que eu esteja em algum outro lugar, isto é, em meus sonhos, como em uma praia, acabo sempre caminhando em direção ao hotel. Um caminho sempre acaba sendo desenterrado pelo vento ou acabo chegando até a porta do elevador enquanto estou debaixo d’água. É como se alguma coisa tivesse despertado depois de um logo sono e precisasse que eu esteja lá. Faz bastante tempo que o antigo Dolphin foi demolido e um novo hotel deu lugar aos seus escombros.

Eu me hospedei duas vezes ao longo dos anos, mas ambas foram antes da renovação do prédio. Todas as minhas memórias dizem respeito ao papel de parede velho e fora de moda que cobria suas paredes. Imagino que agora haja uma cobertura a altura da nova construção, algo mais sóbrio e menos datado do que padrões desenhados dos anos oitenta. A primeira vez em que estive lá me hospedei para visitar uma namorada da época, que estudava na universidade daquela cidade. Começamos nosso relacionamento no final do ensino médio e, naturalmente, como queríamos coisas diferentes, acabamos em lugares diferentes. Alternávamos entre quem visitava quem a cada feriado, e durante as férias, como crescemos no mesmo lugar e estudamos na mesma escola, voltávamos para nossas respectivas famílias e nos víamos.

Por mais que fosse complicado manter o relacionamento desse jeito, carregamos o plano das visitas alternadas por bastante tempo. Era comum que ficássemos em hotéis ou motéis por ambos vivermos em apartamentos de estudantes com regras bem definidas. Permanecemos fazendo isso durante o primeiro ano e meio da faculdade. O ritual era praticamente o mesmo, e mantínhamos uma espécie de plano não declarado do que fazer. Quando ela me visitava, trazia junto um toca-discos portátil com dois ou três discos.

Quando eu a visitava, eu deveria levar os discos, e mantínhamos as coisas funcionando desse jeito. Nos encontrávamos no cinema, assistíamos alguma coisa, caminhávamos até o hotel ou o motel e conversávamos durante horas enquanto ouvíamos música. Consequentemente acabávamos dormindo, mas acordávamos pela madrugada, fazíamos sexo e permanecíamos deitados nus lado a lado ouvindo os discos. Caso ficássemos mais de um dia juntos (levando em conta que a viagem levava pelo menos metade do dia), passávamos grande parte do tempo enfurnados dentro do quarto conversando, ouvindo os discos e fazendo sexo. Normalmente saíamos do hotel ou do motel em intervalos regulares para fumar, comprar comida ou cigarros e caminhar sem rumo por algumas horas antes de passar por outros longos períodos enfurnados.

Pouco antes de pegarmos o trem quando estávamos nos mudando de nossa cidade natal para onde estudaríamos nos despedimos de nossas famílias e nos encontramos na estação. A partir daquele momento cada um iria para um lado do país a fim de estabelecer coisas opostas, e por mais que houvéssemos combinado um encontro algum tempo depois, aquela era uma primeira separação significativa. Caminhamos lado a lado em silêncio pelos corredores da estação procurando nossas plataformas sob a conversa abafada de outras pessoas e vários avisos dos vários alto falantes.

Entramos em uma Tabacaria & Revistaria para comprar cigarros e folear algumas coisas. Cada um comprou dois maços, eu comprei um livro sobre a espionagem durante a Guerra Fria e um pacote de balas de gengibre. Sentamos no banco vago diante da loja e permanecemos em silêncio durante algum tempo enquanto checávamos nossos bilhetes. Meu trem chegaria duas horas depois da partida dela, e na última plataforma subindo contra a direção de onde viemos.

Ela tirou um livro grosso de dentro da sacola onde estavam os cigarros antes de guardar um maço na mochila e outro no bolso da calça. Discos Fundamentais. Provavelmente estava na revistaria fazia um bom tempo. O plástico de proteção ao redor do papel estava amarelado e aberto nas bordas. Aparentemente não era uma publicação muito popular, mesmo para a época. Ela encostou a cabeça em meu ombro enquanto passava algumas páginas lentamente. Reconheci alguns poucos discos, mas a maioria era completamente estranha. Não havia me dado conta até então de que eu havia me mantido dentro da mesma seleção restrita de músicas durante boa parte da minha vida. Embora uma pequena parte fosse graças à influência dos CDs dos meus pais, o resto se limitava às bandas que fizeram sucesso durante a minha adolescência.

– Quando nos encontrarmos – ela disse.

– Hm?

– Quando nos encontrarmos, seja lá quem for visitar quem, deverá levar pelo menos um dos discos desse livro consigo para que possamos escutar juntos.

Fiz que sim.

– Eu tenho uma cópia desse livro comigo na mochila. Liguei para algumas livrarias procurando por outra edição durante uma semana e, curiosamente, me apontaram esse lugar como sendo uma possibilidade. Liguei ontem, no final da tarde, e reservaram para mim.

Segurei o livro com cuidado passando os polegares pela capa.

– Normalmente eles não fazem isso, mas

– Ele estava encalhado faz tanto tempo que provavelmente se sentiram contentes em finalmente poder vendê-lo.

– Uhum.

A partir daquele momento selamos nosso acordo não oficialmente declarado e a cada visita, novos discos. Dois ou três, mas às vezes, como quando descobrimos Kind of Blue, do Miles Davis, apenas um.

Nos separamos com um longo abraço e a vi partindo no trem enquanto segurava o meu exemplar de Discos Fundamentais em mãos. Respirei fundo algumas vezes e caminhei lentamente até a lanchonete para tomar um café. Eram duas horas para matar.

Isso durou aproximadamente um ano e meio. Na última vez em que a visitei, carregando comigo Exile on the Main St, do Rolling Stones e Cloud Nine, do The Temptations, me hospedei no Dolphin Hotel pela primeira vez. Meu quarto ficava no primeiro andar, no final do corredor. Subi usando o elevador antigo que tremia enquanto subia lentamente. As paredes eram cobertas pelo papel de parede antigo que atormentaria meus sonhos durante muito tempo. O ar vibrava com um zumbido praticamente inaudível e o carpete escuro, manchado em alguns pontos, se entendia em recortes desde a saída do elevador e da porta para as escadas até o último quarto, o meu quarto.

VV

Eu me pergunto bastante sobre por que você foi… embora. Quando eu penso em você eu penso em muitas coisas, mas tendenciosamente lembro do jeito que o trompete se esvai completa e subitamente no final de uma música, no jazz, e fica o eco do vazio. É aquele momento em que o trompetista se afasta do microfone do estúdio e respira ofegante algumas vezes antes de retomar o ritmo. Antes disso é a curvatura dos músculos e o direcionamento do ar, a pressão no diafragma, os pulmões firmes, as costelas contra a pele. Nós dois fomos tudo isso.

Agora eu me afasto gentilmente do microfone e respiro ofegante esperando que o ar volte.

Ele não voltou. Acho que nunca vai voltar.

A.L. 2

Eu te quero. Eu te quero sem fôlego. Eu te quero ar pra te respirar. Eu te quero despedaçada feito vertigem e enroscada tipo nó de cabelo na minha pele, com unha na carne, com sangue fervente na veia. Eu te quero numa pose que não para e numa fotografia preta e branca com fumaça. Eu te quero debaixo da guarda-raia e da clarabóia e debaixo do escuro e da pia e do barulho e do silencio. Eu te quero pela primeira vez, pela segunda, pela terceira; eu te quero de novo e pela última vez (mesmo que não exista última vez). Eu te quero sabendo que você só pode ser louca de me querer também. Eu te quero porque você deve ser louca. Eu te quero às quatro da manhã e a mil quilômetros. Eu te quero mais forte do que laço apertado que eu dei na forca.

Porra, eu já disse que te quero?

 

você.

Pensar em você é um ritual do qual eu tenho me privado. Porra, eu não posso deixar essas coisas continuarem. Você aí, eu aqui. Eu não posso mais fazer essas coisas (comigo mesmo).

A gente caminhou numa paralela tão torta de mãos dadas, a gente se abraçou no meio do caminho, ficou um tempo um dentro do outro, apertando firme a pele. Mas as linhas começaram a se afastar, claro. Paralelas assim se aproximando não significam nada bom, sabe. E numa dada hora cada caminho foi pra um lado (errado) diferente.

Você sempre passa pro banco do carona, pro assento vazio no cinema, pro canto do corredor, pelo portão do prédio, sempre em forma fantasmagórica. E eu olho de rabo de olho. Eu sempre olho de rabo de olho.

É, eu impeço várias coisas assim. Essas aparições, essas coisas perseguindo. Mas você sempre vem, sempre encontra um jeito de voltar. Eu sou o culpado por isso, admito.

Eu quem coloquei a merda da música no rádio e ela toca num baixio surdo bem imbecil. Dentro de mim. Sem pentagrama, sem vela, sem esforço, sem vontade, sem nada. Mas não é assim que funciona? Não é assim que

bosta.

Aconteceu de novo.

 

Rascunho PARTE 1

Eu sei o suficiente – e isso não quer dizer que eu saiba muito ou saiba de tudo… só quer dizer que é o bastante. O ser humano comum precisa de, no mínimo, quatro horas de sono por dia/tarde/noite/madrugada. Isso não quer dizer o ser humano saudável comum, claro – muito menos eu.

Mas eu não consigo lidar com… algumas coisas. É, vamos chamar de “algumas coisas”. Eu consigo lidar com o trabalho, com (parte da) vida pessoal, com as obrigações diárias, com limpar o banheiro, fazer compras, tomar um porre, bater as pernas e pés nas quinas dos móveis, coisas que gente normal faz (ou deveria fazer). Mas o resto, o restinho, essa preciosidade infinitesimal, essa fração de horas, minutos e segundos, bem, não.

São os pesadelos. É, eu tentei não dizer, mas obviamente não conseguiria. O problema é que não são exatamente pesadelos. Não são monstros que saem do armário e/ou debaixo da cama, que entram pelas janelas ou derrubam as portas. Porra, não. Eu queria que fossem esses. Queria que fossem criaturas surreais de olhos esbugalhados e sangue efervescente. Eu provavelmente pediria um autógrafo.

O problema é que as coisas são bem piores. Sempre são, né? Sempre são…

Segundo Chuck Palahniuk em o Clube da Luta, “quando se tem insônia você nunca dorme de verdade e você nunca acorda de verdade”, e eu me pergunto se isso se provoca à insônia auto-inflingida (pois é, é o melhor termo que eu consegui determinar pra… isso). Tudo continua sendo uma cópia de uma cópia de uma cópia?

Eu não sei. Mas nada parece real.

Então eu decidi não dormir. No começo foi difícil, claro. Qualquer ser humano (normal) sentiria o peso de uma decisão imprudente dessas logo de cara, eu diria. Ou pelo menos ao longo de alguns dias, talvez uma semana e meia, duas no máximo. O negócio é que depois da terceira semana os meses simplesmente começaram a passar. Sem sono. Sem nada.

Até que por falta de possibilidade de chegar até mim quando eu estivesse de olhos fechados, eles começaram a aparecer enquanto eu estava de olhos abertos. Acordado.

No início, por dedução, não passaria de alucinação fruto da falta de descanso e sono, claro. Os vultos, os relances, os ruídos, as vozes, essas coisas. Alucinações. Eu não… deixaria que isso me afetasse. E não foi difícil. As sombras passavam pelos corredores, pelas janelas do metrô, pelo reflexo dos espelhos e nas bordas dos retratos, e a minha resposta era objetiva e única: ignorar. Mas a merda mora aí, claro.

No décimo nono mês as coisas mudaram. No décimo nono mês foi quando eu percebi que todas as coisas eram reais – e que outras pessoas também conseguiam enxergá-las. Ouvi-las. Senti-las.

No décimo nono entardecer do décimo nono mês o corvo me disse que ela estava me chamando – e isso aconteceu apesar do fato de que corvos não falam, e de que ela não está mais viva.