Aquário

Estou escorregando mais uma vez para dentro do aquário

A sensação de distanciamento

As paredes de vidro opaco

O mundo de fora é turvo

O som, quando passa, passa abafado

Estou afundando numa anemia de desejo

Um desdém repetitivo que reforce minhas entranhas e rasga minha pele

O ar artificialmente bombeado é um reflexo incontrolável 

Permaneço imóvel, embora séssil

Por mais que me desloque sobre minhas conjunções de pernas e sob um céu morto sem fim.

Nada

Começo a aceitar a injustiça

Como regra fundamental e inefável

Tal qual a indivisibilidade do desprezo e do fracasso

Uma totalidade sem começo, nem fim

O aceitar que se multiplica em pensamento 

O nada

O eu.

Cerro

Encaro seus olhos

Quando os meus estão fechados

E uma sombra cruel precipita sobre meus pensamentos 

Acusações que me fazem regredir 

E a regressão talvez seja me reconhecer nas minhas beiradas

Onde eu não alcanço e nem o tempo se atreve a chegar, pelo menos não ainda

E eu penso

Se você já me esqueceu 

Assim como eu mesmo talvez sempre quisera me abandonar em memória

Deixar de ser todo meu presente e passado

Pra me desfazer no ponto turvo entre o agora e mais de um ano atrás

Sozinho em uma cabana no interior numa possibilidade que talvez nem chegue a existir

E são em dias como esse em que eu nem sei mais o que fazer além de sobreviver até o dia seguinte 

Sem qualquer perspectiva 

Nem da ascenção

Muito menos da queda.

Pra você (ou De novo, M.B.)

Gostaria que minha palavra fosse verbo

E transbordasse como coisas feitas 

Como tudo que fosse necessário pra te fazer bem

Gostaria que magia fosse palpável, real e efetiva

Eu começaria intermináveis incalculáveis quantidades de rituais mágicos pra transformar minha palavra

Em algo mais

Algo mais verbo

Que transbordasse como escorrem as mil afluentes dos seus fios de cabelo sobre o travesseiro

Mas meu verbo é amar

E de tão brega, mas tão intenso 

Talvez eu não possa te dar nada além dessa transfiguração sem forma

Mas que infiltra e se molda, assim como a água

Em desde uma taça

Até o espaço de um oceano

Onde vivem um milhão de coisas absolutas e maravilhosas

Tal qual a sensação de sentir o seu cheiro

E de quando te amei sem saber que era amor

E te beijei, aparentemente sem saber até então o que era um beijo

E recostei debaixo do maior de todos os mostardeiros

De onde ventos próximos e distantes me fizeram pensar sobre o futuro

Com filhos, com tango, com vinho, com casa planejada, com você vestida de branco

E talvez minha palavra seja insignificante diante de tantos outros léxicos, verbetes em italiano, canções tocando no nosso quarto de motel preferido, Fridhas e caras mais interessantes, positivos, charmosos, magros, bonitos

mas ela, minha palavra, meu amor, é pra sempre

E talvez pudesse te esperar

Se você quisesse que ela respirasse em sussurros

Todo o meu verbo

Por todo mundo.

Baluarte

Das coisas ditas e de todas as outras não ditas

Da incerteza por onde passeia o absurdo é a possibilidade

De onde nascem taciturnos os raios sem trovões que lhes repliquem

Permanente vocação ao vazio

Da qual me encolho rente ao colchão e à atmosfera abafada e ofegante que me reforma

Sou resultado ainda não finalizado de todas as minhas falhas e dos meus fracassos

Mais do que aos que atribuem minhas pálpebras e vértices arregaladas às aprovações e sucessos

Eu sou fruto que caiu do alto 

E azedou antes mesmo de trombar no primeiro galho

Mas ultimamente tenho combatido montanhas, demônios e ventanias

E embora não me sinta redimido 

Me contento com a continuidade 

Porque já foram muitos mais cabelos e sangue nos ralos

E muito pó e quimioterapia

O que sou eu além dos meus azares e das minhas vontades

Expectativas

Restrições

Balaclavas

Ressonâncias 

Lâminas

Brahms

Dias assim.