Categoria: Poesia

VHS

Gostaria de que fosse possível rebobinar as coisas da minha cabeça como se fossem coisas da vida
e elas se pareceriam muito com um filme dos anos 30 numa fita VHS e é estranho pensar que quase não existem mais fitas VHS
Eu provavelmente colocaria minha trilha sonora favorita de músicas mais deprimentes, mesmo que eu goste muito de ouvir coisas mais animadas
e até ache engraçado essa coisa de gosto musical
Mas não sei o que faria ao dar de cara com todas as minutagens que me deixaram assim, eu só não aguento mais ser assim
Será que daria pra segurar o negativo contra o sol e cortar as partes que mais arrancam pedaços da minha carne, mais do que qualquer navalha que eu procure
desesperadamente nas gavetas pra marcar os piores momentos em que a pressão de um oceano de surdez esmaga meus ossos
Eu gostaria de ouvir tantos outros sons que não fossem dos meus dentes batendo, da minha pele cedendo, do ar invadindo meus pulmões, do tempo me derrotando cada vez mais
Eu gostaria de sentir tantas outras sensações que não fossem como se o fim do mundo fosse a melhor coisa do mundo ou como se houvesse total e completa ausência de sensação
Sinto falta de épocas mais simples, mas pra ser sincero não sei se épocas mais simples sequer existiram
Eu fantasio com meu corpo pendurado por uma corda trançada a corda mais bem trançada que qualquer pessoa já viu
marinheiros invejariam a corda e saberiam que ela não foi feita pra segurar navios, só meu corpo e vai ser um desperdício tão grande
mas às vezes parece ser a única âncora que me impede de me perder e por conta disso eu também perco a vontade de viver
Gostaria de que eu não precisasse mostrar nada pra ninguém
que não houvesse nada pra mostrar
que não houvesse eu tenho depressão
que não houvesse nada
que eu não houvesse também
e quanto mais eu penso nisso eu afundo em todas as direções
e é tão insuportável

não conseguir sustentar meu próprio corpo acima da maré
e eu me sinto desprezível por não conseguir nem mesmo me afogar

 

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Eyes

Her eyes were almost impossible
but yet there

Like a purple sunset from the desert

a crude and beautiful pattern of no pattern

Where every other eye is sucked into until lost

Even if for a single moment
Even if for the eternity

As clouds of uncertainty drift along the pale sands of her cheeks

And from the darkness within comes a surprisingly bright sky.

Saudade (ou: Mensagem não enviada)

Eu não posso
Não consigo

E até minha vontade se partiu
no ponto mais fundamental

As antenas captam frequências distantes e perpendiculares
O silêncio se dispersa em outra língua

Como se a ausência também fosse palavra
Além de ruído

Gostaria de que coisas como te resgatar do evento no teatro pra te levar pra pizzaria

Gostaria de que te tirar do meio da aula pra rodar quilômetros ouvindo sua voz abafada de dor de cabeça

Gostaria de que rir na praia no fim da tarde com o mar indo embora com o sol apagado

Que nada dessas coisas fosse um eco melancólico pra me lembrar de que estou sozinho

Que o tempo fosse reversível e até que eu fosse outra pessoa

Qualquer pessoa menos eu

Gostaria que os planos mais absurdos por mais que permanecessem enquanto planos pudessem receber a aura da dúvida e da futura realização

Que os livros tivessem as palavras certas
Que as placas tivessem as palavras certas
Que eu tivesse as palavras certas

Os cadernos estão se esgotando
E meus sonhos desbotados com árvores amarelas e América do Sul estão se desfazendo junto das traças devoradas pelos anos

Que devoraram minhas péssimas poesias

Gostaria de ter a escolha de trocar a leitura que eu consegui nos seus traços

Por você

Gostaria que você não tivesse mentido
Que eu tivesse valido a pena
Que o carro desse partida
Que nunca mais parasse de chover pelo resto da vida

Mesmo que da minha

Pra terminar semana que vem

Gostaria não ser a sonda de pele fria cheia de mensagens vazias

Lançada contra o nada rasgando o espaço, rasgando a carne, rasgando tudo que nunca vai ser

Gostaria de ser o mago nos arcanos impossíveis
E não o louco
O bobo
A morte inclinada no espelho

A ausência

E eu que amei tanto ser outra coisa que não o nada

E eu que te amei tanto sendo um universo perdido no tempo

Corroendo semanas e meses

Você se distanciando 

Tudo indo embora

A visão ficando escura

O escuro esvaziando

Todos os dias

Todos os dias.

Sputnik

Lançado da propulsão da minha carne débil

A pele fria contra o espaço vazio
E vazio por fora também

O silêncio contra as coisas no espelho
E eu me arrependo

Enquanto cruzo o espaço sozinho
Sem nada ao longo do caminho

Além do detrito dos meus passos sem pés

Uma sonda sem sinal em direção ao próprio fim

A toalha e o cinto amarrados no pescoço

A toalha e o cinto segurando o fim do mundo
Perdido dentre velhas histórias
E pressentimentos absurdos

Sem combustível
Sem destino
Sem futuro

Perdendo o ar na reentrada
Mesmo sem retorno
Sem ter pra onde voltar

Lançado mais uma vez ao espaço
Obrigado

Obrigado,
Lê-se na lataria

“Obrigado
por me expulsar”.

Obrigado.