Categoria: Prosa

10 de maio

O silêncio se emaranhou naquela tarde tal como ninhos de roupa suja e concessões internas de pequenas mentiras.

De cigarro apagado na ponta da boca ela desceu o boulevard procurando o isqueiro vermelho no fundo no bolso da blusa, nos bolsos laterais da calça e nos traseiros, pra finalmente se dar por vencida e nunca mais se apegar aos isqueiros que vivia perdendo.

Feu?  

Ele alcançou o bolso traseiro e depois na lateral da calça. Voilá.

Merci. Ele balançou a cabeça como se não fosse nada de mais, puxou do próprio cigarro apertando os olhos e murmurou boa tarde.

No geral, não havia muitas pessoas nas ruas, nem debaixo delas, não naquela época do ano. A estação onde saltaria pra voltar pro apartamento não estava muito distante, entao, de qualquer maneira, a caminhada não faria mal. Nem o cigarro.

Onde posso comprar uma caixa com vários isqueiros? Ou seria melhor uma de fósforos? A programação do teatro não revelava nada muito interessante, pelo menos até a outra semana. 

Enquanto isso exército alemão se preparava para o Blietzkrieg que daria inicio à tomada do território francês.

Ode ao infinito

Talvez eu precise de alguma maneira revisitar esse velho amigo chamado fluxo pessoal de consciência, que apesar de ter bicado pedaços de carne de outros cadáveres juntou tudo com base numa tragédia dramática e ridícula completamente individual. Trabalhar com ele significa atender (e permitir que) uma série de requisitos sejam devidamente considerados, sendo a melancolia a constante irreparável, mas a falta de fôlego a repetição de compasso sem ritmo a capacidade de deixar várias vírgulas de lado como se fossem degraus de uma escada imunda e houvesse pressa pra chegar no alto do prédio mais alto antes de chegar definitivamente ao chão.

Talvez acessar esse estado específico seja da mesma natureza que um ritual e o altar sejam as coisas despedaçadas que eu guardei de e pra mim mesmo nos reflexos mortos por onde os vultos psicóticos caminham de madrugada nos cantos dos meus olhos, e eu admito, talvez eu voltasse a fumar se já não tivesse preguiça de ter de parar mais uma vez mais uma vez.

Revisitar essa condição é reconhecer um piano antigo abandonado no quarto dos fundos do manicômio onde dormem todas as abstrações, os desejos e amores falidos e se encolhem debaixo do estrado das camas cheias de piolho e pulgas esperando por noite mais quentes e fogem durante a manhã rezando de maneira débil por dias mais frios e validações mais repletas de delicadeza e sobriedade. Só que é o lugar onde as poucas coisas boas de mim escolheram pra apodrecer, e eu vou lá com minha roupa esburacada e aceito sim a água escura pra correr pelas veias, estico os braços e me acomodo na maca quebrada que serve de banco e toco uma melodia sem dó nenhuma durante dez dias e dez noites enquanto o mundo continua andando pra frente, pra trás e pros lados do lado de fora, enquanto as luzes são desligadas e os murmúrios cheios de segredo são dispostos transversalmente na lateral daquele trauma junto da esquina onde os joelhos perderam os tampões.

Esse exercício não serve como terapia, mas como aquele momento em que o arame farpado pula de pedaço em pedaço dos nós e caroços dos músculos e traz a insanidade merda que dói tanto enquanto o organismo permanece vivo. Por detestar a dor o masoquismo é a consequência mais lógica do baile esfarrapado de desculpas por onde passam as lâminas e as piores memórias que chutam com toda força as costelas às três da madrugada, e foda-se quem precisa realizar qualquer coisa, se é que é possível de se realizar qualquer coisa, se é que se é capaz de fazer qualquer coisa.

Às vezes eu me pergunto sobre a sensação aparentemente interminável de estar entre o chão e o céu quando eu me pego pensando em me atirar de um prédio. Aí vem a surpresa. Se o prédio for baixo demais, você estará lá pro durante e pro depois. É um método que eu não escolheria, porque imaginar alguém raspando o chão usando espátula e água sob alta pressão porque eu quis acabar com meus problemas e das outras pessoas ao deixar de existir e consequentemente deixar aqueles rorschach de borboleta e ovogonia de um amor impossível pintadas de vermelho e concreto rachado. Se for pra ser uma obra de arte melhor decompor silenciosamente as piores coisas do mundo em palavras.

Eu permaneço parado contra o atrito anormal do universo inteiro que passa gritando e me arrastando na contramão. Não sei fazer outra coisa. Não sei sentir outra coisa. Não sou outra coisa. E eu pego meu chapéu furado que meu eu estuprado de quinze anos atrás ainda se contenta com esperança de belas melodias, passo os sapatos sem sola no carpete melado de aspirações e outras porcarias que eu devo ter pisado e trouxe da rua, visto meu paletó cheio de traças e volto pra vida normal.

O mundo é um lugar melhor quando eu me tranco em silêncio longe da fumaça dos carros e fico me afogando desastrosamente em autoflagelação e dúvidas incipientes. Amanhã vem a nova decepção, o detalhe de permanecer vivo, esse detalhe circunscrito que veio ferrado de fábrica, porque eu não me sinto vivo, e eu dirijo durante horas de faróis apagados gritando até a voz se transformar num chiado febril que se mistura com o pneu murcho e o asfalto, e eu sinto muito por ser tudo aquilo que nem eu mesmo queria ser, quanto mais o resto da existência.

Eu me contentaria em ser a partícula abstrata que criaram e logo depois mudaram de ideia só pra descrever todas as coisas que flutuam nas sarjetas. A partícula do absurdo.

Mas não há mais tempo, não há mais nada. Com amor,

ode ao infinito.

Enrascada

Parece que eu me meti numa rotina daquelas. Daquelas situações difíceis de todo mundo, aqueles sacrifícios diários pra não pensar na cor do asfalto, pra ganhar dinheiro, pra ficar no trânsito, pra pagar o aluguel, pra encher o prato. Parece que é assim que as coisas funcionam, e não é que me tenha custado a entender, não, não me leve a mal. Mas é que a minha cabeça é um quarteto de jazz tocando 24/7 umas músicas que ninguém compôs e estão dependendo das aulas de trompete que eu disse que faria semana que vem dois anos atrás. E agora também tem o barulho do cigarro queimando em condições ideais de pressão, altura, umidade, temperatura, concentração e tristeza pra brasa arder com aquele som desgraçado que chama o seu nome num sibilo arrastado. Porra. Eu parei de fumar pela terceira vez. Me dá um tempo.

Eu queria te contar essas coisas também. Minhas metáforas diárias, meus monólogos abafados dentro do carro de vidros fechados, minhas caminhadas com o cachorro, minhas noites perdidas. Queria te contar que eu fiz aquela tatuagem e mais 4. Queria te contar que eu tô pensando em largar tudo pela vigésima oitava vez (só nesse ano). Eu fecho os olhos e paro na frente do seu prédio com os faróis baixos. Billie Holiday tocando baixinho. Não, não. Bem alto. Incomodando os surdos. Você desce sorrindo, abaixa pra caber no carro, quase bate a cabeça. Ajusta o banco, coloca o cinto.

Você sempre quis ir pro Atacama. Você estaria com o mapa. Caralho, como eu te amo.

Eu abro os olhos e lembro que você foi de um jeito que não tem mais volta.

Parece que me meti numa rotina daquelas.

13 de julho

Não sei bem o que eu ando fazendo ou o que se tem pra fazer “de verdade”. Ontem pra hoje eu não dormi, então o dia tá sendo esse baile de 36h (até agora) de quem não quer dançar, mas dança mesmo assim. Eu respiro pessimismo, eu acho. Ou talvez só evite ser otimista por excesso de exemplos contrários. Vai saber. Hoje eu pensei em voltar a fumar, e não seria difícil. Eu mantenho um maço e um isqueiro juntos da mochila do trabalho. Não é difícil. Pelo menos isso não é difícil. Eu fico querendo coisas menos complicadas, tipo pôr-do-sol, passear com o meu cachorro às 17h e ver os carros passando. Fumar Marlboro em Paris debaixo da chuva esperando minha companhia pra noite descer e dizer que não é nada pontual mesmo sendo natural de Londres. Eu quero coisas do tipo te dar um beijo ou saber pra onde ir.

Mas eu não fumei hoje. Talvez amanhã.

Existe esperança?

 

Dolphin Hotel pt 1

O Dolphin Hotel sempre me chama nos meus sonhos. De alguma maneira eu sempre acabo andando por entre suas paredes antigas. Sempre ouço o zumbido inexplicável que fica suspenso no ar. Mesmo que eu esteja em algum outro lugar, isto é, em meus sonhos, como em uma praia, acabo sempre caminhando em direção ao hotel. Um caminho sempre acaba sendo desenterrado pelo vento ou acabo chegando até a porta do elevador enquanto estou debaixo d’água. É como se alguma coisa tivesse despertado depois de um logo sono e precisasse que eu esteja lá. Faz bastante tempo que o antigo Dolphin foi demolido e um novo hotel deu lugar aos seus escombros.

Eu me hospedei duas vezes ao longo dos anos, mas ambas foram antes da renovação do prédio. Todas as minhas memórias dizem respeito ao papel de parede velho e fora de moda que cobria suas paredes. Imagino que agora haja uma cobertura a altura da nova construção, algo mais sóbrio e menos datado do que padrões desenhados dos anos oitenta. A primeira vez em que estive lá me hospedei para visitar uma namorada da época, que estudava na universidade daquela cidade. Começamos nosso relacionamento no final do ensino médio e, naturalmente, como queríamos coisas diferentes, acabamos em lugares diferentes. Alternávamos entre quem visitava quem a cada feriado, e durante as férias, como crescemos no mesmo lugar e estudamos na mesma escola, voltávamos para nossas respectivas famílias e nos víamos.

Por mais que fosse complicado manter o relacionamento desse jeito, carregamos o plano das visitas alternadas por bastante tempo. Era comum que ficássemos em hotéis ou motéis por ambos vivermos em apartamentos de estudantes com regras bem definidas. Permanecemos fazendo isso durante o primeiro ano e meio da faculdade. O ritual era praticamente o mesmo, e mantínhamos uma espécie de plano não declarado do que fazer. Quando ela me visitava, trazia junto um toca-discos portátil com dois ou três discos.

Quando eu a visitava, eu deveria levar os discos, e mantínhamos as coisas funcionando desse jeito. Nos encontrávamos no cinema, assistíamos alguma coisa, caminhávamos até o hotel ou o motel e conversávamos durante horas enquanto ouvíamos música. Consequentemente acabávamos dormindo, mas acordávamos pela madrugada, fazíamos sexo e permanecíamos deitados nus lado a lado ouvindo os discos. Caso ficássemos mais de um dia juntos (levando em conta que a viagem levava pelo menos metade do dia), passávamos grande parte do tempo enfurnados dentro do quarto conversando, ouvindo os discos e fazendo sexo. Normalmente saíamos do hotel ou do motel em intervalos regulares para fumar, comprar comida ou cigarros e caminhar sem rumo por algumas horas antes de passar por outros longos períodos enfurnados.

Pouco antes de pegarmos o trem quando estávamos nos mudando de nossa cidade natal para onde estudaríamos nos despedimos de nossas famílias e nos encontramos na estação. A partir daquele momento cada um iria para um lado do país a fim de estabelecer coisas opostas, e por mais que houvéssemos combinado um encontro algum tempo depois, aquela era uma primeira separação significativa. Caminhamos lado a lado em silêncio pelos corredores da estação procurando nossas plataformas sob a conversa abafada de outras pessoas e vários avisos dos vários alto falantes.

Entramos em uma Tabacaria & Revistaria para comprar cigarros e folear algumas coisas. Cada um comprou dois maços, eu comprei um livro sobre a espionagem durante a Guerra Fria e um pacote de balas de gengibre. Sentamos no banco vago diante da loja e permanecemos em silêncio durante algum tempo enquanto checávamos nossos bilhetes. Meu trem chegaria duas horas depois da partida dela, e na última plataforma subindo contra a direção de onde viemos.

Ela tirou um livro grosso de dentro da sacola onde estavam os cigarros antes de guardar um maço na mochila e outro no bolso da calça. Discos Fundamentais. Provavelmente estava na revistaria fazia um bom tempo. O plástico de proteção ao redor do papel estava amarelado e aberto nas bordas. Aparentemente não era uma publicação muito popular, mesmo para a época. Ela encostou a cabeça em meu ombro enquanto passava algumas páginas lentamente. Reconheci alguns poucos discos, mas a maioria era completamente estranha. Não havia me dado conta até então de que eu havia me mantido dentro da mesma seleção restrita de músicas durante boa parte da minha vida. Embora uma pequena parte fosse graças à influência dos CDs dos meus pais, o resto se limitava às bandas que fizeram sucesso durante a minha adolescência.

– Quando nos encontrarmos – ela disse.

– Hm?

– Quando nos encontrarmos, seja lá quem for visitar quem, deverá levar pelo menos um dos discos desse livro consigo para que possamos escutar juntos.

Fiz que sim.

– Eu tenho uma cópia desse livro comigo na mochila. Liguei para algumas livrarias procurando por outra edição durante uma semana e, curiosamente, me apontaram esse lugar como sendo uma possibilidade. Liguei ontem, no final da tarde, e reservaram para mim.

Segurei o livro com cuidado passando os polegares pela capa.

– Normalmente eles não fazem isso, mas

– Ele estava encalhado faz tanto tempo que provavelmente se sentiram contentes em finalmente poder vendê-lo.

– Uhum.

A partir daquele momento selamos nosso acordo não oficialmente declarado e a cada visita, novos discos. Dois ou três, mas às vezes, como quando descobrimos Kind of Blue, do Miles Davis, apenas um.

Nos separamos com um longo abraço e a vi partindo no trem enquanto segurava o meu exemplar de Discos Fundamentais em mãos. Respirei fundo algumas vezes e caminhei lentamente até a lanchonete para tomar um café. Eram duas horas para matar.

Isso durou aproximadamente um ano e meio. Na última vez em que a visitei, carregando comigo Exile on the Main St, do Rolling Stones e Cloud Nine, do The Temptations, me hospedei no Dolphin Hotel pela primeira vez. Meu quarto ficava no primeiro andar, no final do corredor. Subi usando o elevador antigo que tremia enquanto subia lentamente. As paredes eram cobertas pelo papel de parede antigo que atormentaria meus sonhos durante muito tempo. O ar vibrava com um zumbido praticamente inaudível e o carpete escuro, manchado em alguns pontos, se entendia em recortes desde a saída do elevador e da porta para as escadas até o último quarto, o meu quarto.

VV

Eu me pergunto bastante sobre por que você foi… embora. Quando eu penso em você eu penso em muitas coisas, mas tendenciosamente lembro do jeito que o trompete se esvai completa e subitamente no final de uma música, no jazz, e fica o eco do vazio. É aquele momento em que o trompetista se afasta do microfone do estúdio e respira ofegante algumas vezes antes de retomar o ritmo. Antes disso é a curvatura dos músculos e o direcionamento do ar, a pressão no diafragma, os pulmões firmes, as costelas contra a pele. Nós dois fomos tudo isso.

Agora eu me afasto gentilmente do microfone e respiro ofegante esperando que o ar volte.

Ele não voltou. Acho que nunca vai voltar.

A.L. 2

Eu te quero. Eu te quero sem fôlego. Eu te quero ar pra te respirar. Eu te quero despedaçada feito vertigem e enroscada tipo nó de cabelo na minha pele, com unha na carne, com sangue fervente na veia. Eu te quero numa pose que não para e numa fotografia preta e branca com fumaça. Eu te quero debaixo da guarda-raia e da clarabóia e debaixo do escuro e da pia e do barulho e do silencio. Eu te quero pela primeira vez, pela segunda, pela terceira; eu te quero de novo e pela última vez (mesmo que não exista última vez). Eu te quero sabendo que você só pode ser louca de me querer também. Eu te quero porque você deve ser louca. Eu te quero às quatro da manhã e a mil quilômetros. Eu te quero mais forte do que laço apertado que eu dei na forca.

Porra, eu já disse que te quero?