O Zoológico no futuro

Era uma sexta. Uma sexta incrivelmente quente, que ameaçava derreter até as grandes paredes dos prédios, arranha-céus e corporações. O movimento era intenso para um dia no final da semana útil – para alguns, claro. O visual era totalmente caótico: as ruas pareciam formigueiros, totalmente polvilhadas de pessoas atrasadas, adiantadas, nervosas, ocupadas, estressadas, a caminho do trabalho ou realizando alguma tarefa. Era totalmente incrível ver aquele cenário que mais parecia Tóquio, numa segunda-feira às 8h. As milhares de formigas amontoavam-se nas avenidas, cada uma com sua tarefa dentro da enorme colônia urbana. A vida era assim, extremamente movimentada e sem tempo de ao menos tomar fôlego.

Roberto havia feito hora-extra na semana que se antecedeu para cumprir a promessa que havia feito aos filhos: levá-los ao zoológico. Na verdade achou que seria um ótimo programa, totalmente diferente e original. Bem, qualquer coisa que não fosse um shopping ou centro tecnológico estaria de bom grado. Sim, ainda existiam zoológicos, para sua surpresa. Varou a madrugada de seu sábado procurando pela cidade qualquer programa que não envolvesse os centros humanos mais comuns. Algo como uma reserva ambiental, mas não havia reservas em sua cidade, todas haviam sido vendidas. Pensou em praia. Não havia praias que não fossem artificiais, nas quais a água parecia mais uma grande piscina salobra, lotadas de senhores e senhoras de idade avançada. Estava exausto de procurar quando finalmente achou o zoológico. Leu que o movimento era mínimo. Realmente deveria ser: nunca ouvira falar daquele lugar.

Era divorciado há dois anos, mas não se acostumava com a guarda de finais de semana de jeito maneira. No entanto, tinha de trabalhar para sustentar-se, sustentar a ex-esposa, Anne Marie (neta de franceses) e seus dois filhos, Joanne e Henrique. Havia marcado de pegá-los na escola e os levar para um almoço num restaurante perto do zoológico. Estava realmente animado com aquele programa diferente que poderia fazer com os filhos. Não era recíproco. Preferiam ir a algum lugar mais movimentado e moderno. Roberto lembrava-se vagamente de animais de sua infância, alguns dos poucos que haviam sobrado fora das minúsculas reservas na Austrália e na África.

Lembrava dos pássaros que revoavam o céu, sumiam à noite e cantavam logo antes do sol levantar. Lembrava dos pequenos macacos que trepavam nas árvores perto de sua casa, na tentativa de comer alguma fruta que pendia lá do galho mais alto. Sentia saudade de tudo aquilo e, curiosidade de ver outros animais que havia visto poucas vezes em outros zoológicos de sua infância, ou mesmo na TV. Ursos, tigres, leões, lobos, pavões, focas e qualquer outro animal que pudesse lembrar. Tinha horror a cobras, mas mesmo assim, desejava vê-las. Olhou em seu relógio. O sinal da escola havia acabado de tocar.

Deu beijos em seus filhos e entrou no táxi, com destino ao restaurante. Chegando lá, apesar do cardápio um tanto variado, todos acabaram por comer porções infindas de batata frita. Era a única coisa que os filhos queriam e, depois de muita discussão foi o prato escolhido. Queria suco, mas acabou tomando refrigerante, que foi escolha geral. Os sucos eram mais industrializados que qualquer outro refrigerante existente ali, pensou. Almoçaram rápido e foram a pé ao zoológico, perto dali. Conversou com os filhos sobre os incríveis animais selvagens e únicos. Disse que não havia necessidade de medo, devido a segurança do lugar. Nunca ouvira falar de incidentes em zoológicos quando criança. Talvez lembrasse um, envolvendo um gorila mal humorado. Mas era algo vago e descartável da memória.

Atravessaram o grande pátio que se estendia em frente a enormes grades coloridas e deram de cara com o esplêndido anúncio, dependurado quase que por mágica, em cima de suas cabeças: Zoológico. As crianças estavam completamente desanimadas, sem mostrar nenhum interesse. Roberto animava-se cada vez mais. Estava atônito! Seus olhos brilhavam de emoção, como se houvesse resgatado um precioso tesouro. E pra si, realmente era algo de grande valor. Foram caminhando adentro e leram as recomendações das placas. Não alimente os animais, não jogue nada dentro das jaulas e coisas do tipo. Viram ao longe uma enorme jaula, com uma placa escondida em meio uma vegetação artificial.

As crianças não deram interesse. Roberto as puxou pelo braço em súbito e, arrastou-as até aquela jaula. Procurava o majestoso animal que estaria ali. Seria um leão? Um tigre? Um gorila? Ou mesmo um bando de pavões! Esperava ansioso. As crianças não davam a mínima atenção aos detalhes e não tinha nenhum tipo de expectativa. Ouviu-se um rosnado. Os olhos do pobre pai encheram de lágrima e as crianças arregalaram os seus. Demonstravam agora um interesse inesperado. Passos arrastados aproximavam-se lentamente. Deveria ser algo pesado e grande, a julgar pelo jeito como caminha, pensaram.

As crianças soltaram um Uh Oh. Roberto baixou os ombros decepcionado, arrasado. Mas ao menos, entendia o motivo daquilo tudo. As crianças olhavam atentamente, enquanto o pai, totalmente desolado, apenas olhava. Henrique puxou as folhas artificiais e leu na placa de aspecto rústico: Canis familiaris, ou comumente chamado de Cachorro doméstico. As crianças soltaram outro Uh Oh. Não havia mais outros animais além dos antigos domésticos. Em outras jaulas viram uma enorme variedade de gatos e outros cães. Desde vira-latas até de raça híbrida ou pura. Uh Oh. E o pai pensava agora no trabalho que teria de adiantar para segunda-feira.

A cidade

Não se sabia ao certo quando ou como aquilo havia começado. Mas chegou de mansinho e instalou-se de vez na vida de todas as pessoas dali. As ruas eram completamente desertas, as esquinas eram completamente desertas, as avenidas eram completamente desertas e, até o céu apresentava-se num azul frondoso, exuberante, por falta de nuvens em toda sua extensão.
Um forasteiro chegou à cidade – o que de certo, não era nada comum.
Veio com passos tímidos pelo pueril daquela mínima cidade, quase no meio de nada. Seus sapatos mal fariam barulho em qualquer lugar, mas ali, o silêncio era tamanho, que suas passadas pareciam mais um rinoceronte truculento caminhando no concreto. O calor era infernal, já que nem mesmo o vento dava ar de sua graça.

Arriscou uma olhada por entre os becos, as vielas, as casas… Mas nada. Tudo parecia totalmente desolado, como se tivesse sofrido um abandono de última hora. Era uma cena um tanto quanto peculiar: objetos ainda permaneciam espalhados pela cidade.
Uma cadeira de balanço vazia em frente ao casarão velho; uma dúzia de bolinhas de gude, multicoloridas e cintilantes, espalhadas na calçada; carroça sem cavalo, arriada em frente ao depósito; garrafas de bebida, umas cheias, outras vazias, como se alguma bebedeira houvesse sido interrompida; uma corda de pular, trançada como nos tempos de antigamente; bicicletas deitadas na parte mais rebaixada da rua e tantas outras coisas que ia catalogando com sua retina. Não via ser vivo algum e nem mesmo, alma penada. Sentia-se o único ser do planeta e, completamente sozinho, vertia-se de solidão e angústia.

De repente, ouviu um ruído baixo vindo de um bar de aparência antiga, ao seu lado direito. Aproximou-se com uma faísca de alegria e outras duas de cuidado. Ouviu de novo o barulho. Decidiu averiguar mais de perto, era sua chance.
Arrastou-se suavemente até o local, tendo até abandonado suas malas no meio da rua. Arregalou seus pequenos olhos verdes. Suava frio, temeroso de que acontecesse algo de ruim. Chegou ao lado do bar, criou coragem e bateu palmas. Ô de casa! Ô de casa!
E nada. Repetiu o chamado por algum tempo. Mas nada acontecia.
Ô de casa! Ô de casa! Nada.

Olhou em volta e percebeu a enorme mesa de bilhar, gasta, com bolas em cima, algumas encaçapadas, outras não. Era como se um jogo houvesse sido interrompido.
Notou alguns tacos apoiados em cadeiras, outros em cima da mesa e um repousado no chão. Olhou bem o lugar. Viu alguns anúncios de bebidas das mais diversas e do prato do dia.
O silêncio era tanto que seus pensamentos ecoavam pelo lugar, dando impressão que os falava. Ouviu novamente o ruído, prestou atenção. PSIU! PSIU! Aqui… PSIU!
Procurou cauteloso a origem do chamado. PSIU! PSIU! Entendeu que vinha de uma fresta mínima na janela. Viu algo brilhando por ela e se deu conta que era um olho.

Aproximou-se vagaroso e confirmou sua presença, estou aqui, o que houve?
Venha se esconder, senhor! Rápido! Dizia a voz, quase inaudível.
Mas oras, esconder de quê? O que houve? Alguma criatura, algum criminoso, alguma alma penada, o quê? Respondeu o forasteiro, afobado, curioso e prestes a ter um ataque de ansiedade. Diga logo!
Vem vindo! Vem vindo!
O quê vem vindo, Meu Deus?
Mas você não soube? Não soube mesmo?
Cheguei à cidade hoje, oras, como poderia lá saber? Encontrei esse lugar completamente deserto, como se tivessem varrido a presença viva daqui. Quase enlouqueço!
Entendo sua frustração, senhor. Mas precisa entender que precisa procurar um abrigo, algum lugar pra esconder-se. Pode vir pra cá, se quiser.
Por quê?
Ela está vindo, diacho! Já não disse?
Ai, cacete! Já entendi que ‘ELA’ está vindo! Mas quem é ela?
O senhor não sabe?
Não, oras.
A tal da globalização!
Ora, pois!

Gravidez

Era época de natal. A luz do sol iluminava timidamente aquele bairro pobre, que mal se destacava do resto da cidade, quanto mais do resto do mundo. Talvez o sol mal soubesse que iluminava aquele lugar, fosse mero acidente cósmico. Aquele bairro mínimo, que havia começado como invasão, ficava ao lado de um córrego e, mais a frente, um riacho. Tal riacho era a diversão das crianças daquele lugar, que nadavam noite e dia. Mulheres lavavam roupa e, uma ou duas casas secretamente despejavam seus esgotos particulares ali.
Não era uma vida de regalias, não era um lugar de grandes construções nem de grande destaque, mas era cheio de harmonia.

Quando o sol começava a se espreguiçar no horizonte, muitos já estavam de pé, outros tomando banho e outros, café. O lugar era repleto de pessoas trabalhadoras, em grande maioria destinada ao trabalho pesado, braçal. Não havia violência e nem grandes rebuliços. Sofriam constantes cortes da energia elétrica – de instalação extremamente precária. Seu sistema higiênico não era lá essas coisas, mas dava pro gasto. Todos cuidavam de todos, como se fosse uma grande comunidade próspera.

Bem próximo ao riacho existia uma casinha pequena, simples. E lá morava uma moça morena, magrinha, que trabalhava como empregada doméstica, conhecida simplesmente por Ma, apelido dado a partir da lenda de uma sereia de água doce. Ma, do mesmo jeito que a sereia, adorava nadar, principalmente no córrego perto de casa.
Tinha um namoro que perdurava por alguns meses, com um rapaz trabalhador, ainda moço, chamado Zé. Este rapaz trabalhava de marceneiro, mas sempre ajudava os pedreiros nas mais diversas obras. Estava juntava aos poucos seus trocadinhos pra construir uma casa nova para si e sua namorada. Conheceram-se numa dessas festas de bairro, durante o São João. Foi amor à primeira vista. Tudo seguia perfeitamente normal, sem grandes expectativas, porém, sem grandes preocupações.

Naquela manhã, a moça havia acordado diferente. Sentia-se estranha. Com o passar do tempo a tal estranheza foi aumentando, fazendo-a sair do trabalho mais cedo, com licença de sua patroa. Sentia fortes dores de cabeça, dores abdominais e uma náusea incrível. A ânsia de vômito era incontrolável e, quase a fez ter um treco no meio da rua. Ali, tão pertinho de casa. Teria um treco, um piripaque, um ziriguindum e cairia durinha no chão. Não, não podia, não! Tinha de chegar em casa sã, em plenas faculdades mentais. E com muito esforço, assim o fez. Tirou o sapato, despiu-se, vestiu algo mais confortável e… saiu correndo até o banheiro. Vomitou até não poder mais. Quase não respirava. Sabia que algo estava errado. Chamou seu pai, pedreiro, que trabalhava com seu namorado na obra ao lado.

Ambos preocupados, não sabiam o que fazer. Chamaram a mãe da moça. A mãe benzeu, rezou, pediu pra o santo da católica, pro santo da umbanda e até pro Santinho, um senhor de idade daquele bairro, que diziam ter poderes milagrosos. O tempo passava e nada da moça melhorar. O mais curioso é que os sintomas não diminuíam e nem aumentavam. Permaneciam constantes. Alguns outros sintomas surgiram como, a constante ida ao banheiro e coceiras na perna esquerda, que estava um pouco empolada, talvez, conseqüência de alguma alergia.

Passou-se um mês e nada da moça melhorar. Perceberam algo curioso, a barriga da moça estava crescendo. Talvez fosse só impressão, vamos cuidar das outras coisas. Mas com o passar dos meses, sua barriga crescia cada vez mais. Não deu outra, o velho Alfredo, pai da moça sabia que a filha estava prenha. Chamou sua esposa, dona Rita, que o segurou com ajuda de seu irmão, Mário. O velho Alfredo queria a todo custo dar uma surra bem dada no rapaz, pra aprender a não ficar se engraçando com sua filha, emprenhar sem nem ter noivado.
Chamaram o rapaz. Uma inquisição dos diabos e, o bairro todo ficou sabendo da confusão. Todos queriam linchar o pobre do Zé. Falou-se até em prender o coitado numa gaiola! Mas o rapaz, desesperado, jurava de pés juntos, por sua mãe morta enterrada debaixo do chão, cheinha de verme e por seu padroeiro que não tinha feito nada.

Pressão de lá, resposta de cá, todos tensos. Decidiram tirar a prova dos nove, examinariam a integridade virginal – como era chamada por Seu Alfredo – da moça. Quarto trancado, a mãe, a vizinha e a filha dentro do quarto. Minutos depois a vizinha grita, acode! acode! acode! acode que comadre desmaiou! Não se sabia o motivo do desmaio nem do alvoroço. Valei-me minha Nossa Senhora, a mãe acordou, soluçava, urrava e tinha um sorriso rasgado de um canto a outro. Minha filha é virgem. É milagre, é milagre. Todos ficaram impressionados. O pai então, quase enfartou. Desculpou-se ao rapaz com todas as poucas palavras que conhecia. E repetiu quantas vezes achou possível e impossível repetir.

Falaram em construir uma capelinha em nome da moça. Era milagre, era filho do Espírito Santo, era Jesus voltando, acode, acode, o maior alvoroço e ficou a confusão armada. Todos cuidavam da moça e a tratavam com o maior mimo que poderia ser dado. Alfredo e Zé ocupavam-se construindo um estábulo improvisado, para que a volta de Zésus, o messias, fosse ao menos parecida com a primeira vez que houve de vir ao mundo. Passou-se o tempo e a barriga crescia mais e mais. Acertaram com a parteira, acertaram com Seu Santinho e com todo mundo. O dia que o menino nascesse seria uma festa inimaginável. Chamaram até os jornais para os meses que estavam pra chegar.

O tempo passou. O tempo estava acabando, sete meses, oito meses, nove meses e nada. Dez meses, Meu Deus e agora? Deve ser porque é filho Dele! Onze meses e minha Nossa Senhora, vamos pro hospital. Em procissão, foi o bairro inteiro com a moça até o hospital. Deram entrada, explicaram tudo. Mas não fez pré-natal? Valei-me minha Nossa Senhora, vamos pra sala de emergência então. Entraram com a moça. O tempo passava e nada. Algumas horas se passaram e volta o médico, com cara de riso, mas sem saber como dar a notícia.
E aí, seu dotô? O menino nasceu? E aquele rebuliço não tinha fim.

E foi então que ficaram sabendo que a virgem Marcela, tinha barriga d’água.

A aflição

Era tarde. Tarde suficiente para as ruas estarem completamente desertas e silenciosas. Sapos e grilos faziam convenção de chiados, talvez em disputa. Ouvia-se o velho ônibus vindo do fim da rua, chacoalhando peça por peça, como quem ameaça desmontar em mil pedaços.
Lúcio, cansado como ele só, depois de um dia fatigante de trabalho, estava ali em seu canto – tremendo de medo – esperando o ônibus. Queria chegar em casa, tirar os sapatos, esparramar no sofá, comer a comidinha da patroa – mesmo estando fria. Não importava. Tinha fome e sono. Mas as duas só não eram maiores que seu medo.
Seu Lúcio (como era conhecido em seu bairro), morria de medo de assalto. Pra piorar a situação, tinha visto no noticiário que os índices de assaltos em ônibus estavam alarmantes. Medroso como já era, a notícia só o fez sentir-se mais temeroso ainda – e mais covarde.

O ônibus vinha do fim da rua. Identificou-o como sendo o que esperava. Graças a Deus!
Entrou no ônibus – este vazio, fora a presença do motorista, cobrador e um sujeito sentado no fundo – cumprimentou o motorista e o cobrador. Dirigiu-se ao meio do ônibus, vagaroso – e medroso. Fez contato visual rápido com o sujeito do fundo. Achou que era suspeito. Valei-me minha Nossa Senhora! E agora? E se for um assaltante?
O ônibus iria custar para chegar em casa, próxima ao destino final da rota. Dava espiadas de canto de olho para o rapaz. O sujeito parecia estranho, nervoso com alguma coisa. Olhava para todos os cantos, suava muito e, estava duro em sua poltrona – nada confortável.

Seu Lúcio percebeu esse nervosismo e logo pensou no pior, achando que era um marginal criando coragem. Tremia nas bases, batia o queixo, suava mais que o bandido. Droga! É agora. Justo no dia que recebo meu pagamento! E aquela aflição não tinha fim. O cobrador cochilava com a cabeça recostada na janela; o motorista ouvia um rádio de pilha que estava ao seu lado, transmitindo um jogo de futebol. Seu Lúcio estava aflito. Ou melhor, louco de aflição. Decidiu aproximar-se a porta, que para seu desagrado era próxima ao assento do bandido. E agora? Vou de qualquer jeito, afinal posso perder meu ponto. Além do mais, acontecendo algo, posso saltar com toda minha força contra a porta e me salvar. Alguns machucados, claro, mas fora isso, salvo.

O rapaz ao fundo, tremia de aflição, nervoso com o assalto. Sentia o cano frio junto à barriga e suava cada vez mais. Respirava fundo, soltava grandes porções de ar. Olhava repetidamente para todos os lados, como se verificasse algo – que definitivamente não estaria ali. Ouviu um baque e arregalou os olhos. Seu Lúcio arregalou mais ainda. Os dois se olharam. Não havia sido nenhum dos dois. O rádio de pilha do motorista havia caído no chão do ônibus. Respiraram ambos aliviados. A tensão estava no ar e, a qualquer momento o ato aconteceria.

O que fazer? O que fazer? Seu Lúcio tomou coragem, engoliu seco, foi até o rapaz. Puxou a arma da cintura do sujeito e clamou em alto e bom tom:
Isso é um assalto!

Desesperado, o rapaz passou tudo o que tinha. Desde uma correntinha de falsa prata, um anel de plástico, uns vale-transportes e alguns trocados que tinha no bolso.
O motorista gelou instantaneamente. O cobrador continuava dormindo, como se nada tivesse acontecido. Seu Lúcio deu o sinal e comentou que era seu ponto.
Desceu os degraus do ônibus e foi caminhando até o portão de casa, enquanto o ônibus distanciava-se até o fim daquela rua escura.

Realmente, os índices de assalto em ônibus estão alarmantes, pensava.