Ode ao infinito


Talvez eu precise de alguma maneira revisitar esse velho amigo chamado fluxo pessoal de consciência, que apesar de ter bicado pedaços de carne de outros cadáveres juntou tudo com base numa tragédia dramática e ridícula completamente individual. Trabalhar com ele significa atender (e permitir que) uma série de requisitos sejam devidamente considerados, sendo a melancolia a constante irreparável, mas a falta de fôlego a repetição de compasso sem ritmo a capacidade de deixar várias vírgulas de lado como se fossem degraus de uma escada imunda e houvesse pressa pra chegar no alto do prédio mais alto antes de chegar definitivamente ao chão.

Talvez acessar esse estado específico seja da mesma natureza que um ritual e o altar sejam as coisas despedaçadas que eu guardei de e pra mim mesmo nos reflexos mortos por onde os vultos psicóticos caminham de madrugada nos cantos dos meus olhos, e eu admito, talvez eu voltasse a fumar se já não tivesse preguiça de ter de parar mais uma vez mais uma vez.

Revisitar essa condição é reconhecer um piano antigo abandonado no quarto dos fundos do manicômio onde dormem todas as abstrações, os desejos e amores falidos e se encolhem debaixo do estrado das camas cheias de piolho e pulgas esperando por noite mais quentes e fogem durante a manhã rezando de maneira débil por dias mais frios e validações mais repletas de delicadeza e sobriedade. Só que é o lugar onde as poucas coisas boas de mim escolheram pra apodrecer, e eu vou lá com minha roupa esburacada e aceito sim a água escura pra correr pelas veias, estico os braços e me acomodo na maca quebrada que serve de banco e toco uma melodia sem dó nenhuma durante dez dias e dez noites enquanto o mundo continua andando pra frente, pra trás e pros lados do lado de fora, enquanto as luzes são desligadas e os murmúrios cheios de segredo são dispostos transversalmente na lateral daquele trauma junto da esquina onde os joelhos perderam os tampões.

Esse exercício não serve como terapia, mas como aquele momento em que o arame farpado pula de pedaço em pedaço dos nós e caroços dos músculos e traz a insanidade merda que dói tanto enquanto o organismo permanece vivo. Por detestar a dor o masoquismo é a consequência mais lógica do baile esfarrapado de desculpas por onde passam as lâminas e as piores memórias que chutam com toda força as costelas às três da madrugada, e foda-se quem precisa realizar qualquer coisa, se é que é possível de se realizar qualquer coisa, se é que se é capaz de fazer qualquer coisa.

Às vezes eu me pergunto sobre a sensação aparentemente interminável de estar entre o chão e o céu quando eu me pego pensando em me atirar de um prédio. Aí vem a surpresa. Se o prédio for baixo demais, você estará lá pro durante e pro depois. É um método que eu não escolheria, porque imaginar alguém raspando o chão usando espátula e água sob alta pressão porque eu quis acabar com meus problemas e das outras pessoas ao deixar de existir e consequentemente deixar aqueles rorschach de borboleta e ovogonia de um amor impossível pintadas de vermelho e concreto rachado. Se for pra ser uma obra de arte melhor decompor silenciosamente as piores coisas do mundo em palavras.

Eu permaneço parado contra o atrito anormal do universo inteiro que passa gritando e me arrastando na contramão. Não sei fazer outra coisa. Não sei sentir outra coisa. Não sou outra coisa. E eu pego meu chapéu furado que meu eu estuprado de quinze anos atrás ainda se contenta com esperança de belas melodias, passo os sapatos sem sola no carpete melado de aspirações e outras porcarias que eu devo ter pisado e trouxe da rua, visto meu paletó cheio de traças e volto pra vida normal.

O mundo é um lugar melhor quando eu me tranco em silêncio longe da fumaça dos carros e fico me afogando desastrosamente em autoflagelação e dúvidas incipientes. Amanhã vem a nova decepção, o detalhe de permanecer vivo, esse detalhe circunscrito que veio ferrado de fábrica, porque eu não me sinto vivo, e eu dirijo durante horas de faróis apagados gritando até a voz se transformar num chiado febril que se mistura com o pneu murcho e o asfalto, e eu sinto muito por ser tudo aquilo que nem eu mesmo queria ser, quanto mais o resto da existência.

Eu me contentaria em ser a partícula abstrata que criaram e logo depois mudaram de ideia só pra descrever todas as coisas que flutuam nas sarjetas. A partícula do absurdo.

Mas não há mais tempo, não há mais nada. Com amor,

ode ao infinito.

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