8 gramas de silêncio – parte 20


A massa de areia que vinha em forma de névoa envolveu o djinn e pouco antes de também me engolir, acordei assustado, sentado e com os braços apoiados nos joelhos e a cabeça entre as pernas, completamente ensopado e pingando de suor. O trem acabara de deixar a última estação antes do lugar onde eu deveria descer. Meu peito doía como se eu tivesse escapado por pouco de um afogamento e o corpo estava dolorido. Presumi que estava desidratado, que deveria beber alguma coisa assim que pudesse. Havia sido um sonho, no final das contas. Um sonho. Um sonho? Pra que essas coisas aconteçam normalmente precisa-se dormir, mas eu não havia tomado nenhum remédio. Ou aquilo era uma boa ou uma péssima notícia. O sonho fora tão vívido (e surreal) quanto o repetido sonho da rua escura, da casa abandonada e assim como ele, sem sentido algum. Sentido era exatamente o que faltava na minha vida naquele momento. Tudo que eu havia planejado e inserido dentro de uma rotina, as corridas e caminhadas, comprar pão, os bandejões na universidade, os livros e discos, o único amigo, os estudos, os planos e todas as outras coisas que faziam parte do meu dia-a-dia foram levados embora.

Aviso da próxima estação. Levantei, encostei na barra de apoio em frente à porta e assisti enquanto todas as coisas do lado de fora passavam mais devagar. Saltei e fui até o banheiro. Havia uma fila enorme na porta, todos haviam pensado no mesmo que eu: enfiar a cara na pia e ligar a torneira. Imagino que as mijadas naquele calor eram mais escassas. Desisti. No topo das escadas, já na saída, comprei uma garrafa d’água super inflacionada (custando pelo menos três vezes o preço normal). Considerei um péssimo investimento beber tanto dinheiro em dois goles. Água quente ou morna. Morna mais cara. A gelada havia acabado. Morna era o suficiente, apesar de cara. Água quente e próxima de ebulir talvez não valesse o investimento. Sentei no canteiro próximo à saída, debaixo de uma árvore seca e quase sem folhas. Pedi com todas as minhas forças que Camila chegasse o mais rápido possível. E que ela me ouvisse e realmente apertasse o passo ou pisasse fundo no acelerador, não importava.

Quinze minutos, três garrafas d’água. Comecei a prestar atenção nas pessoas ao meu redor, suas roupas de verão e seus hábitos esquisitos que se fundiam à multidão e não pareciam nada de mais. Aquele bairro, porém, era um pouco diferente dos outros. Havia poucas construções novas, e mesmo estas tinham aspecto antigo. Não sujo ou caindo aos pedaços, mas eram esteticamente antigos. A pintura de alguns era extremamente gasta, mas nenhum deles possuía infiltração. Estava ficando sem dinheiro, mas tomei outra garrafa d’água, sentia minha pele escorrendo junto do suor. Alguns dos prédios possuíam armações e colunas do estilo greco-romano, outros lembravam salões escandinavos e o estilo indiano de paisagismo, enquanto determinadas casas lembravam a arquitetura árabe. Aquele lugar, que eu mal imaginava que existia até “precisar” visita-lo, não tinha nada a ver com o resto da cidade, parecia uma ilha com cores, gostos e cheiros próprios em meio a um arquipélago de ilhas padrão. Na verdade cada quarteirão era um pedaço de um vitral bastante complexo.

Olhei pra cima em direção ao maior arranha-céu e nele havia um outdoor gigantesco. O arranha-céu parecia não pertencer àquele lugar, mas de alguma forma se encaixava quase que perfeitamente. Os andares, conforme subiam, formavam uma espécie de ilusão de óptica graças à inclinação do vidro das janelas que dava a impressão de que cada andar seria na verdade um degrau. No topo, o outdoor mostrava um homem de feições indígenas e cabelos longos e usando uma máscara vermelha de pássaro em metade do rosto. Estava cercado de modelos de traços semelhantes aos seus, mas que eram pálidas e muito magras. O homem estava sentado em uma poltrona de forro escuro e aos seus pés havia várias penas de diversas cores.

– Interessado no Chalchi?

Olhei pro lado. Chalchi?

– É a propaganda de um novo perfume, Pavão Real – Camila tomou um gole d’água e ajustou os óculos escuros – o nome do modelo é Chalchi. Acho que é mexicano.

– O perfume?

– Não, o perfume eu não sei de onde é, o modelo que é mexicano. Ultimamente é meio complicado saber de onde as coisas realmente vieram ou se originaram, não é? Mas você sabe lá no fundo de que essas coisas não são realmente “originais”.

– Como algo realmente mexicano, você quer dizer. Globalização.

– Hm, acho que tá mais perda do sentido real.

– Continua sendo globalização.

Comprei mais água com dinheiro emprestado e acabei levando também um jornal da banca do outro lado da estação. Surto de doenças tropicais graças ao calor era a principal manchete, primeira página. Um milhão de avisos sobre quão importante é manter-se hidratado. Depois denúncias da inflação dos preços da água. Coisas quebradas, gente morta. Culpa do governo que é de esquerda ou de direita. Nunca de quem deixou de tomar um copo d’água. Se o governo for centrista, é porque ser ambidestro não faz bem. As notícias sempre continuam as mesmas, a única coisa que muda é a quantidade de suor grudado no papel. De informação em informação acabamos descobrindo que deveríamos ter descido em outra estação, mas que não era necessariamente tão longe dali. Eis o problema de caminhar no deserto.

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