Acho que matei a verdade


Eu estava sentado na poltrona lendo um daqueles livros vagabundos e ouvindo uma música qualquer quando o telefone tocou naquela maneira desesperada de sempre. Fiquei quieto e permaneci imóvel pra ver se ele se cansava até parar, mas ele não parava.

— Sou eu.

— Oi.

— Acho que matei a Verdade.

— Uma mulher?

— A Verdade.

— Como assim?

— A Verdade, homem, ela.

— Sei. E aí?

— Eu tava naquele bar de letreiro vermelho duas esquinas do trabalho, sabe qual? A gente já bebeu lá, quebramos umas garrafas.

— Sei qual é.

— Depois do expediente eu passei por lá pra tomar uma cerveja e acabei bebendo mais, você sabe como eu sou.

— Uhum.

— Bom, eu já estava bem bêbado quando uma garota sentou do meu lado. Ela tinha uns trinta anos, usava um vestido curto de decote razoável, parecia um pouco com uma puta, mas eu não ligava, só conseguia olhar praquele par de coxas pelo copo e ela percebeu, mas parecia não se importar.

— Eram boas pernas?

— Do jeito que você e eu gostamos.

— E aí?

— Meu dinheiro acabou e comecei a ganhar algumas bebidas de graça. Mas só estávamos no bar o par de coxas, o dono, dois garotões se pegando do outro lado, dois velhos trocando socos bêbados quase do lado de fora e eu.

— As bebidas eram dela, ok, mas e aí?

— Calma, calma. Ela se apresentou e disse que o nome era Verdade. Eu também me apresentei. Achei estranho o nome, mas tem tanto nome estranho  por aí e aquele era até legal. Tinha um som legal, sabe?

— Soava sincero…

— Exatamente isso, homem.

— Espera um pouco.

Apoiei o gancho do telefone na mesa, fui até a geladeira e peguei uma cerveja. Sentei devagar acomodando o rabo no assento e procurando a melhor posição no encosto. Arranquei a tampa, tomei um gole e voltei pro telefone.

— Continua.

— Onde eu tava?

— O nome dela…

— Ah, sim. Conversamos um pouco e estávamos já bem altos quando decidimos ir pro apartamento dela. Cruzamos algumas ruas abraçados um na embriaguez do outro, atravessamos alguns quarteirões e chegamos no lugar. Ela serviu uísque em dois copos rachados e bebemos mais um pouco, tiramos nossas roupas e trepamos.

— Foi bom?

— Foi estranho. Não sei, foi bem…

— Sincero?

— Algo assim.

— E então?

— Dormimos e acordamos várias vezes durante a madrugada. Fizemos tudo de novo algumas vezes. Bebíamos uísque, trepávamos e dormíamos. Levantei pra mijar, lavei as mãos… o rosto. Quando voltei pro quarto ela tava lá, sentada na cama, nua e enrolada no lençol manchado de álcool e porra, com o olhar distante e a boca meio aberta, murmurando.

— Sonâmbula?

— Sei lá. Começou a falar sobre mim como se realmente soubesse quem eu sou.

— Perdão? Não entendi.

— Disse no que eu trabalhava, as coisas que eu fazia, meus defeitos e o porque eu deveria largar meu emprego de merda e tentar fazer outra coisa, voltar a estudar, disse que eu era um bêbado maluco que tratava as pessoas com indiferença, que vivia apertado e precisando de empréstimos.

— Hm…

— Depois começou a falar coisas mais estranhas. Disse que existem pessoas por aí sofrendo, doenças, gente maluca que vive roendo os próprios ossos contra a luz e o escuro dos próprios olhos. Do sangue podre e das hipocrisias, das coisas boas e inesperadas, de como tudo é muito pequeno e fetidamente superestimado ou como as boas pessoas esquecem ou não encontram o caminho pra acreditar em suas próprias mentiras ou verdades. Começou a falar mais e mais rápido como se estivesse possuída, suava pra caralho e me olhava nos olhos como se esperasse alguma coisa de mim, começou a falar de consumo e de abstenção, de quanto eu era solitário.

— E então?

— Ela me agarrou pelos braços e apertou com força as mãos e fiquei com essas marcas roxas e arranhões que não saem até agora. Dói pra caralho, uma merda. Ela me empurrou contra a parede e me sacudiu. Deus, o que eu fiz?

— O que você fez?

Ouvi alguns grunhidos e a respiração pesada. Um choramingo no telefone e o começo leve de um surto repetitivo. Mandei que lavasse o rosto e respirasse fundo pra terminar de contar tudo com calma.

— Acho que matei ela. Dei uma garrafada na cabeça, com força. Com toda força do mundo. Eu mandei ela calar a boca, afundei os cacos na sua cabeça e ela caiu no chão. Aquele barulho pesado e uma poça de sangue pequena encardiu o carpete nojento embaixo dela.

— Por que você fez isso?

— Eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei, eu não sei.

— Calma, pegue o braço dela e cheque o pulso.

— Tá quase normal, só mais fraco.

— Então ela não morreu.

— Ufa, isso, porra, por que não pensei nisso, nossa.

— Ok, aproveita que ela tá dormindo pra tirar uns cacos da cabeça dela. Deixa algum dinheiro aí pros cuidados e vai embora. Ah! Não esqueça de sair com ar de tranquilidade.

Ele agradeceu e desligou o telefone de repente.

Fui até a geladeira e peguei outra cerveja. Peguei o resto de vinho no armário e sentei na cama. Tomei a cerveja em três goles, acabei com o vinho e desmaiei abraçado com a garrafa enquanto a Verdade e a Loucura agonizavam num prédio imundo qualquer.

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4 comentários sobre “Acho que matei a verdade

  1. Sempre que posso, dou uma passada por aqui pra acompanhar ao máximo sua criatividade. Não sou muito de comentários, mas dessa vez tenho que deixar um e cair naquela redundância em dizer que gostei do texto… ficou MUITO BOM, assaz intenso e bonito! Isso é redundante porque tudo que você escreve (e escreve muito bem!) é digno desse mesmo elogio. Mas esse… putz… adorei (247 vezes!). :}

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