Ayala (primeira parte)


Perto dos últimos dias de aula dei de cara com uma folha maltrada em um dos murais, sobre uma viagem com um grupo de estudantes até uma casa distante no interior do país, e que precisariam de mais pessoas pra ajudar a pagar algumas despesas. Liguei de última hora e viajei como membro extra do grupo, sem conhecer ninguém. Precisavam de um lugar pacífico e relativamente distante pra concluir um trabalho complicado e no caso de dois deles, relaxar e estudar pra defesa de suas respectivas teses diante de uma banca. E eu, longe de toda e qualquer finalidade parecida, achei que seria diferente. E só isso. Éramos gentis uns com os outros, mas no limite do necessário, trocando poucas palavras. Grande parte das conversas era sobre o tal trabalho e as tais teses a se defenderem, e por mais que eu sinceramente quisesse ouvir sobre tudo houve um momento em que não agüentava mais aquele tipo de contato.

E então, como estavam ocupados o suficiente com suas próprias tarefas, não foi nenhuma surpresa que eu me isolasse do resto do grupo e passasse a maior parte do tempo dormindo ou bebendo ou escrevendo ou caminhando cada vez mais distante da casa. Quando finalmente descobri a desembocadura de uma cachoeira fraca e baixa, que formava um pequeno lago dentro de uma clareira escondida depois de um terreno abandonado decidi que passaria a maior parte do meu tempo ali. Acordava mais cedo, tomava banho e um café da manhã bem reforçado, vestia meias grossas, calça e camisa de botão pra sair o mais rápido possível e chegar na clareira antes do almoço. Normalmente deitava na grama e rabiscava alguma coisa, esboçava as árvores ou tentava escrever, mas sempre era interrompido caindo no sono.

Na última semana decidi que tinha de terminar algum desenho e completar algum texto, que por mais agradável fosse dormir na beira do lago, deveria aproveitá-lo de outra maneira. Comi mais reforçadamente antes de sair e tomei várias xícaras de café. Guardei um energético na mochila velha onde levava o caderno, o estojo, o guarda-chuva e o casaco, alonguei-me durante algum tempo e saí.

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