The song remains the same – Physical Graffiti


Não havia vestígios tão claros de outra presença na casa além da bebida que acabava mais rápido que o normal. Ela e o gato se davam bem, mesmo que ele ainda não falasse com ninguém além de mim. E nós dois nos dávamos bem. Estigmas surgiram, pois é, o grande problema do convívio é que ele evidencia todas as coisas óbvias sobre qualquer outra pessoa. Eis um dos grandes problemas da existência de uma verdade, caso você considere a obviedade sincera um problema. Nunca soube brigar. Muitas vezes por não ver sentido em quase nenhuma briga. Quando mais novo, um grupo de garotos se reuniu à minha volta pra tentar me tirar do sério, desrespeitar, sei lá, acho que nessa idéia o conceito de respeito é mais pelo medo prático do que pela teoria. E lembro bem que eles xingavam desde o filamento mais simples do meu DNA até os fios de cabelo da minha mãe. Como não resultara em nada, passaram a cuspir. Eu me limpava e não era nada de mais. Uma hora, depois de dar alguns tapas no meu rosto, desistiam e saiam de perto do menino estranho. Meus amigos me cobravam alguma atitude e chegavam e me bater pra ver se eu esboçava alguma reação. É, eu sei, eu era realmente um garoto estranho. Em casa era praticamente igual.

Quando apanhava, eu só verbalizava dor pra não me machucar tanto apanhando, e eu confiava nos motivos pelos quais eu levava minhas surras. E tinha preguiça de revidar com argumentos. A única vez que revidei numa briga, na escola, foi pra defender um gato vira-latas de ser morto pelos moleques de sempre. Apanhei bastante, claro, mas lembro que, não fosse a amizade dos meus pais com a diretora da escola, teria sido expulso – e até ia dar rolo na polícia. Durante um mês meu pai demonstrou um misto de orgulho e decepção. Decepção pela situação, claro. Orgulho por eu ter quebrado os narizes de cinco garotos. Vai saber. Depois disso me tiraram do karatê e decidiram que eu deveria canalizar minha raiva de outra maneira, e meio que muitas coisas vieram a calhar. Herdei um piano do meu avô, um piano bem velho e vagabundo. Fora o som, que era bem estranho. Puseram-me em aulas de piano. Não me interessava pelos clássicos, mas os aprendia pra não criar grandes problemas.

Com quinze pra dezesseis me envolvi com a professora de piano, que era casada. E durou até perto dos meus dezoito, e toda conotação sexual das aulas só tornava tudo mais interessante. Não tocávamos mais clássicos eruditos, mas os clássicos do rock’n roll. Quando ganhei meu primeiro LP do Led Zeppelin, da minha tia Lúcia, o Physical Graffiti, gastei um mês e meio tirando as músicas de ouvido. A Zuzu (chamemos a professora de piano assim) marcava mais aulas só pra me ouvir tocar Led, que, segundo ela, era uma interpretação tão sincera e visceral, que nem mesmo intérpretes de música clássica poderiam tocar algo com tanta vontade. Ganhei o resto dos LPs da discografia da própria Zuzu. Passei-lhe minhas referências musicais de uma a uma, desde Iggy Pop ao Zeppelin e aos progressivos brasileiros que eram a grande onda underground da época. E ela ensinava coisas que nenhum garoto de quinze anos poderia saber sobre como trepar direito.

Numa quinta ela não apareceu. Nem na sexta, nem na semana seguinte e pra nunca mais dar as caras. Na época simplesmente conclui que sua consciência havia pesado. Claro que, com meus dezessete e meio, o fim daquela relação estranha havia me deixado bem ferrado. Só até eu entrar na faculdade, que era em outra cidade. Doei o piano, vendi a vitrola, levei os LPs comigo, que sobreviveram até invadirem a república e os roubarem junto de mais um monte de porcaria. Dia mais fodido da minha vida. Nunca chorei tanto. Nunca bebi tanto. O foda é que por culpa disso comecei a trabalhar depois da faculdade e juntei uma grana. Passei a morar sozinho, essas coisas. Coisas que fodem a visão de mundo de um cara com dezenove anos e uma libido inconseqüente.

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