Cartas na rua


– Olha, olha! Olha ali!
– O quê, homem?
– Aquele livro ali.

Ele apontou com o nariz sacudindo a cabeça feito um maníaco e depois decidiu apontar loucamente com o dedo.

– Esse? peguei um livro preto de tamanho mediano e mostrei.
– Isso, Bukowski!
– Por que você não disse o nome ou apontou de uma vez?
– Apontar é feio.
– Sei.

Ele pegou o livro das minhas mãos deu uma bela folheada, contou algumas páginas e parou num certo ponto. Saí de perto pra olhar alguma coisa pra mim. Dei a volta na prateleira e comecei a olhar do outro lado. Ouvi a risada esganiçada característica do meu amigo e seguida da já esperada tosse.

– Ah, esse velho filho da puta é demais! e tossia arranhando todo o percurso da garganta e fazendo barulhos estranhos.

Dei a volta na outra prateleira e deixei o homem se divertindo com o livro. Tinha de achar um pra mim. Era uma necessidade anormal. Na verdade ainda é, não consigo passar por uma livraria sem renovar o estoque de coisas-pra-ler. Raramente são revistas. Os livros mandam e desmandam e demandam espaço nas gavetas, no armário, nas bancadas e na minha vida. É uma influência escrota, eu sei. E não tão boa quando se é estudante e pseudoescritor e precisa bancar o vício. Três prateleiras depois alguma coisa finalmente me chamou a atenção. Gabeira. O Que É Isso, Companheiro? Já ouvira falar do livro. E bem. Até filme tem – que um dia quem sabe eu assisto. Abri e li rápido as primeiras páginas sobre o exemplar. Era uma das primeiras edições de tiragem e mesmo assim estava novinho. Fechei o livro e segurei contra a coxa, fazendo contato com o jeans.

-Você conhece esse cara?
– O Gabeira?
– Não, o Bukowski.
– Não.
– E o Gabeira?
– Também não. Escuta, vai levar esse?
– Vou sim. Quer tomar alguma coisa?
– Tem cafeteria aqui perto?
– Na parte dos fundos é cafeteria. Mas, porra, vai tomar café de novo?
– É o meu vício. O seu é o cigarro.
– Mas você também fuma de vez em quando.
– Aí é que tá. De vez em quando não é gastar caralhadas de dinheiro pra ter câncer de pulmão. Fora que eu roubo um ou outro de você.
– Eu li que bastam poucas tragadas pra você desenvolver certas doenças.
– Prefiro ficar doente de graça.
– Ou a custa dos outros.
– Exato. Quer um café também?
– Dizem que tomar café e fumar faz mal, pô…
– Ah, vai se foder.

– Bom dia, senhor. O que deseja?
– Dois cafés pra viagem, um puro e forte e o outro…
– Com leite.
– O outro com leite.
– A conta foi processada no computador e lá na frente o senhor paga.
– Qual o seu nome?
– Desculpe?
– Hm, Clara. Desculpe, não tinha visto o crachá.
– Ok.
– Clara, você acha que café com cigarro faz mal?
– Bom, senhor – disse meu nome e pedi que me chamasse por ‘você’ também.
– Olha, quem fuma já tem problemas o suficiente pra se preocupar em combinar com café.
– Obrigado. Viu só?
– É, acho que sim… Então cancela o café com leite e manda dois puros.
– E fortes.
– Isso.

– Cara, me dá um cigarro?
– Toma – entregou o cigarro e pegou um pra si.

– Mas, hm, quem toma tanto café assim também não devia se preocupar em misturar com cigarro. Mesma merda.

Ouvi uma risada esganiçada seguida da tossida característica. Ele se aproximou do balcão e soltou um ‘gostei de você’.

– Você prefere ser acordada com café ou com cigarro?
– Com os dois.

Ela entregou os cafés e o bilhete da saída.

– Acho que virei cliente.
– Eu também.

Clara corou de leve e sorriu um daqueles sorrisos sinceros e sem graça. Se eu pressionasse mais um pouco ela diria que talvez preferisse que eu tomasse no cu junto com o café.

– Bom. Obrigado, Clara. Bom trabalho.
– Valeu. Voltem sempre.

Tomamos o café no caminho até o caixa.

– Ah, merda, tenho de comprar ração.
– Você tem algum bicho, pô, não sabia. Achei que você não gostasse…
– Ué, por quê?
– Suas alergias.
– Dá pra conviver.
– Cachorro?
– Não, um gato meio vira-lata. Filhote, preto.
– Credo, gato preto?
– Você lê Bukowski, cara, não reclama.
– Porra, o que é que tem a ver?
– Nada, deixa pra lá.
– Não, você não gosta do Bukowski?
– Já disse, não conheço, não tem como gostar ou não.
– Então tá.

Pagamos os livros e os cafés.

– Como é o nome do gato?
– Buk.
– Buk?
– É, Buk, de Bukowski.

Guardei a ficha no fundo do bolso e desci a avenida a pé com meu amigo. Talvez ligasse pra Clara mais tarde.

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