Pequenas Canções (parte 6) – Capítulo 2


O barulho da cobertura do ponto de ônibus era terrível, ameaçador. Passava impressão de que desabaria a qualquer momento debaixo da chuva pesada. Era madrugada e algumas ruas estavam parcialmente alagadas. Não era o melhor momento e nem horário pra se ficar sozinha na cidade. Muito menos esperar por salvação. Ela estava encolhida no ponto de ônibus com frio e com fome. Medo não. Talvez ela fosse excessivamente corajosa às vezes. O silêncio era cruel, ecoando por todos os lados. Tinha aproximadamente treze anos e a situação era a pior possível. Típico clichê pra todas as porcarias que aparecem nos noticiários/filmes de terror. Ser seqüestrada, estuprada, assassinada. Hipotermia, desmaio, ser atingida por um raio. Apesar de ser extremamente racional, tinha esperança de que alguma coisa acontecesse, que alguém bom o suficiente acontecesse e tudo fosse revertido. E ela salva. Fugir de casa sob aquelas circunstâncias não era, com certeza, confortador. Mas fazê-lo fora necessário.

Alguns carros passavam de vez em quando, mas ninguém via a garota encolhida no ponto e sentada no banco frio. Nenhum ônibus, nem mesmo a linha da madrugada. Encolhia-se cada vez mais abraçando as pernas e protegendo a mochila com a parte posterior das coxas. O cabelo derramado na frente do rosto e várias gotas d’água lhe escorriam pelas bochechas geladas. Os lábios estavam arroxeados e contraídos pelas mordidas que dava de cinco em cinco minutos. Estava ali por duas horas e mantinha-se firme, imóvel. e indefinidamente abandonada. Talvez por não conseguir sair graças ao frio e fome que tudo permanecesse daquele jeito. De qualquer maneira não seria inteligente sair. Era meio magra e aparentava certa fragilidade, apesar de parecer mais velha do que seus quase treze anos. Um dos braços magros de animal machucado entrou na mochila. Encontrou o pacote de biscoitos e teve certa dificuldade de tirá-lo lá. O último pacote. Roeu devagar cada biscoito. Tinham de durar.

Um raio cortou o céu. Encolheu-se mais. Frio. Centenas de agulhas invisíveis espetavam seu corpo e a aflição aumentava. a dor aumentava. Trovões. A chuva estava piorando e a água carregava muito lixo pela rua. Ouviu um barulho esganiçado e sentiu um arrepio na espinha. O barulho aumentava como estivesse cada vez mais perto. Outro raio cortou o céu, viu uma silhueta e soltou um gritinho assustado. O contorno respondeu com outro barulho esganiçado. Sentiu o coração disparado. Fechou os olhos com força. Com toda força possível. Esperava que qualquer fosse o mal que lhe acontecesse, que passasse rápido. Ou que o cérebro bloqueasse a dor, o trauma, como todos os casos extremos noticiados. Lembrou dos piores casos possíveis, logo agora esse tipo de merda vem na cabeça. O silêncio ficou pesado mais uma vez. Talvez fosse sua imaginação. Alguns segundos passaram.

Sentiu algo tremendo junto dos seus pés. Segurou o segundo grito colocando as mãos na frente da boca. O que faria caso fosse um animal selvagem? E se fosse um assaltante, estuprador, seqüestrador, tarado? Ou um pedófilo filho da puta? Ou tudo junto? O medo finalmente apareceu. E era visível. Mordia os lábios com tanta força que sentia gosto de sangue na ponta da língua. Levantou o rosto com cuidado, sem movimentos bruscos. Outro raio cortou o céu.

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