London, London e As Pegadas na Areia – reescrito (parte 1)


Cabeça latejando. A consciência distante. O corpo implorava pra que voltasse. Cabeça latejando, pulsando dolorosamente. A consciência estava retornando das profundezas do limbo. Parecia ter saído de um longo período de hibernação. Acordou devagar. Olhos fechados. Os sentidos reapareciam devagar. Provavelmente todas as outras pessoas ainda estavam dormindo. Ouviu roncos baixinhos e todos os outros sons estranhos e todas as respirações e estalos sinistros que saíam das paredes.

Ouviu as gotas que caiam na pia. O velho ventilador de teto rangia e as pás da persiana batiam umas na outras. Sentiu a cueca e as calças. Estava descalço e sem camisa. Sentiu que havia mais pessoas por perto. Naquele lugar. Que lugar? Provavelmente um quarto. Um dos quartos. Sentia cheiro de álcool. Vinho e uísque e cerveja caprichosamente misturados. Que suicídio. Cheiro de cigarro. Maconha e cigarro normal. Alguns perfumes. E suor.

Passou os dentes na língua e sentiu gosto de cerveja e tequila. E… aquilo era gosto de cigarro. Alguém se mexeu do seu lado. Alguém lhe agarrou pela cintura e voltou a respirar baixinho. Ele não fumava. Nem mesmo quando bebia. Nem mesmo quando bebia muito. Talvez fosse o beijo da garota, aquele corpo pequeno. Provavelmente a chamara de pequena. Muitas e muitas vezes. Passou o braço ao redor do corpo dela. Não queria nem abrir os olhos e nem se mexer. Mais nenhum milímetro. Por enquanto. Procurou por mais gostos na língua pastosa. Desde o começo havia outro gosto. Forte e persistente e familiar. Mas de quê? Apertou os olhos. A cabeça ainda doía. E tinha o gosto. Gosto de quê? Colocou um dos braços debaixo da própria cabeça. O outro continuava abraçando a garota. O gosto era de boceta mesmo.

Sentiu uma gosta de suor descendo pela testa e escorrendo do lado esquerdo do rosto. Abriu os olhos. Não instantaneamente, claro. Abriu milimetricamente e permitiu que a luz fraca os invadisse aos poucos. Rodou os olhos pelo quarto. Respirou fundo o ar cheio de todas as porcarias que havia notado antes. Afundou a mão nos próprios cabelos. Os dedos procurando espaço no meio das mechas e fios. A garota era de no máximo vinte anos. bonita. Bonita. Não era linda. Tinha um charme natural, essas coisas que chamam atenção num lugar lotado. Livrou-se delicadamente do abraço. Alguns corpos estirados no chão, todos enterrados num sono cheio droga e sexo e muita merda. A garota estava com sua camisa e era só uma camisa. Provavelmente tinha outra na mochila, dane-se.

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