Yes


Já foram passos demais. Ok, talvez não até o limite do suportável, mas foi o bastante dentro dos meus próprios limites. Meu próprio código moral não permite a violação dos termos auto-impostos. Além disso, não há garantias. Observar de longe imaginando a consistência que seu corpo assumiria. Que meu corpo assumiria. Com que tipo de coisas eu realmente lidaria depois do primeiro contato real? A boa dissimulação permite manter tudo no mais inquieto dos silêncios. Talvez haja quem desconfie. Talvez. Serão suposições perfeitamente negáveis. No meio tempo observações e comparações estranhas têm de abastecer o limite necessário. Não há outra maneira.

Restam dias contados até que não a veja mais. Até que eu não a veja jamais. Faz duzentos e trinta e nove anos que eu não exagero, juro. Dou essa colher de chá. O inevitável é, sem via de dúvidas, imperfeito. A cidade é pequena. O mundo é pequeno demais. O tempo é curto e ultimamente só me contento com o presente. Ela tem alguém, eu sei, eu sei. Sei exatamente como as coisas funcionam, e mesmo não sendo o melhor dos caras que há por aí, não sou dos piores. Entre toda e qualquer situação o meio termo é sempre cabível. E por isso afundo meus braços e deixo minhas próprias marcas absurdas, agarro com toda força todas as coxas e seguro cada uma das cinturas. O gozo é sempre o gozo e cada ruído é subalterno de uma decisão mal tomada. E ao mesmo tempo bem tomada.

Enxergo-a parecidíssima com algo entre Audrey Hepburn e Zooey Deschanel. Imperceptivelmente estranho. Mantenho contato com meu subconsciente vinte e quatro horas por dia, só lhe falta o par de olhos verde-azulados. Só me falta descobrir que nenhuma delas é o que eu preciso. Acontece. Me viro com neurose e toques dulcíssimos de auto-ironia, elas adoram. Fingir também que está tudo bem é uma decisão. Não a melhor de todas, não a pior de todas. É só uma decisão. Acreditar que enquanto estou de cabeça baixa ou ouvindo Cure imaginando se mais alguém sequer suporta os gritos do Smith, que ela furtivamente olhe como quem não quer nada nem ninguém. Minhas comparações e fixações e observações não são lá as melhores. Mas me mantém na ativa.

– Você gosta de Cure?
– Como?
torce o rosto e sorri.
– The Cure. “Just say yes, nanana, do it now, let yourself go, hum, hm, hm”.
– Gosto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s