6 de agosto.


Abriu lentamente os olhos. Tateou na cômoda por alguns segundos, até que finalmente alcançou os óculos. Colocou-os delicadamente, porém, de uma maneira intensamente mecânica. Com certa dificuldade livrou-se das cobertas, grossas e encardidas de uma lã antiga e rígida. Sentou-se na cama e esticou o corpo durante uns instantes. Não era mais o jovem de tantos anos no passado. Na verdade, desde seus catorze, não sabia o que era juventude.  Olhou no calendário, pregado atrás da porta. Constatou com um ar de frieza. Sim, é o dia. Levantou-se lentamente da cama, afinal, com setenta e oito anos, não havia necessidade de pressa. Tomou um banho demorado, vestiu-se, juntou sua única mala e desceu as escadas do apartamento.

Chegou de táxi até o aeroporto. Esperou alguns minutos e embarcou em seu avião. Estava a caminho de sua cidade natal. Mudou-se ainda jovem, mas nunca havia se acostumado totalmente com aquela vida, tão longe de casa, apesar de tudo. Sabia que sua cidade natal, depois de tudo, não era a mesma. Desde seus catorze anos, dos passeios no campo, da namorada, dos amigos e brincadeiras, não era a mesma. Afundou-se na poltrona, puxou o lençol até o pescoço e adormeceu, acordando apenas no ponto de conexão. Onde, fora alguns atrasos, tudo ocorreu como previsto.

Observou as nuvens branquinhas, cortadas por aquele pássaro de metal, tão semelhante aos três manons vermelhos que haviam cortado o céu sessenta e quatro anos antes. Observou a mudança nos tons do céu, na espessura das nuvens e no passar do tempo. Leu um pouco, até pegar no sono. Acordou no momento de tomar sua última conexão. Sem atrasos, dirigiu-se ao avião, que partiu rapidamente, deixando a Cidade Luz pra trás. Comeu finalmente, vencido pela fome. Sentia-se nervoso e um tanto enjoado, por isso dificilmente comia no avião. Comeu pouco, mas, satisfatoriamente bem. Por sua frágil aparência, atraia a atenção das aeromoças, que perguntavam periodicamente se precisava de algo. Só chegar logo. Não se preocupe, chegaremos. Observou a noite cair sobre as asas do avião, transformando-as em pérolas planas, flutuando num espaço quase sem fim. As luzes de Tóquio brilhavam no reflexo das janelas. Senhor Itusro Okani? Estão aguardando o senhor na sala de espera. Avisou a gentil aeromoça francesa, num inglês polido e perfeito. Quase não utilizava seu nome de batismo. No Brasil, era simplesmente conhecido como Oka, apelido dado por seus alunos. Oka lecionava no curso de belas-artes, desde sua fundação. Era membro respeitado e histórico, além de pintar como ninguém.

Assim que o avião pousou, encontrou-se com sua companhia, um primo de Osaka. Depois de horas de silêncio, numa viagem cansativa de carro, chegaram ao destino, na cidade natal do renomado professor. Oka levantou-se com ajuda de seu primo. Caminhou vagarosamente até o mirante e pediu que fossem ao memorial. Sem mais delongas, ambos entraram no carro e tomaram o rumo desejado. Depois de meia hora chegaram. Oka não demonstrava cansaço. Demonstrava uma disposição absorta e inacreditável para alguém de sua idade. Muitos dos passageiros, mais jovens que aquele senhor, estavam dormindo, desmaiados devido a longa e desgastante viagem de conexões e esperas.

O velho olhou no relógio. Oficialmente meia-noite. Engoliu seco, abaixou a cabeça e fez uma curta prece. Seu primo reduziu a velocidade e fez o mesmo. Oka enxugou as lágrimas de seu rosto frágil e cansado. Normalmente japoneses tendem a envelhecer menos, mas, graças à vida difícil, o professor envelheceu mais rápido do que poderia se imaginar. Ao chegar finalmente no local, seu primo olhou em seus olhos de um modo profundo e machucado. Lembrou-se novamente dos três manons silvestres que sobrevoaram o céu, naquela manhã de agosto. Um deles deixou cair alguma coisa. Como qualquer outro garoto, acreditou que era um pequeno cogumelo, alimento típico daquele pássaro. E, lembrava-se, era a mais linda das manhãs. Seus olhos encontram os de seu primo.

Meia-noite? É. Sessenta e quatro anos, então. Exato… Sessenta e quatro anos desde que saí de Hiroshima.

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