janela do mundo ::.

8 gramas de silêncio – parte 19

domingo, maio 20, 2012
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As pessoas estavam evitando ao máximo todos os meios de transporte públicos. As estações estavam praticamente vazias e os trens pareciam vagões de um passeio por um percurso mal assombrado em que ectoplasma de algodão estaria colado nas bordas das janelas mal recortadas e caveiras assustadoramente desengonçadas desceriam por fios que deveriam ser invisíveis e o sistema de som por debaixo das poltronas emitiria o ruído ambiente através das caixas estouradas. Quem arriscou pegar o trem teve de enfrentar “os ar condicionados estão em manutenção” e os avisos de, por favor, não tirem suas camisas. Os policiais estavam com bermudões e coletes a prova de balas. Os funcionários que trabalhavam em cabines provavelmente estavam nus da cintura pra baixo, e também provavelmente, a cidade, aquela cidade, nunca vira tanta gente de bermuda, chinelo, regata, vestido leve e em quase trajes de banho como naquele momento. As formigas que caminhavam debaixo da terra, pensaria ela a respeito de todos nós, nunca tiveram tanta pele.

Abriram a comunicação entre os vagões na tentativa de criar uma circulação de ar, o que independente de funcionar ou não, já serviria de alívio psicológico. A cada tantos metros quadrados um ser humano se posicionava sobre uma poça de suor, distantes um dos outros de forma que o mínimo de uma brisa passasse de vez em quando. Do meio do corredor, de onde eu estava, enxerguei no vagão anterior alguém completamente coberto. Ninguém dava muita atenção, acabei cogitando delírio por desidratação, mas normalmente delírios não interagem tão rápido. E por mais que delírios tendam ao surreal, um beduíno tomando sorvete num metrô não fazia muito sentido. O sujeito era alto e imponente, ombros largos e corpo completamente coberto por uma espécie de túnica cor de sangue. A cabeça estava voltada para baixo, o que impedia que lhe vissem o rosto. Uma vez havia lido num livro que a quantidade de roupas e cobertura do vestuário do beduíno formava uma camada de ar resfriado entre o tecido e a sua pele, o que lhe permitia sobreviver por mais tempo no deserto.

 Deserto. Faltavam dunas, escorpiões e camelos. Aquela provavelmente era uma miragem, então não estava tão distante assim. Fora o calor infernal. O trem deu um tranco e os passageiros despertaram do estado de quase letargia, olharam pros lados procurando pela causa. Nada. Outro tranco. Estávamos desacelerando a cada tranco, e não recebíamos explicações pelos alto falantes – se é que ainda funcionavam. O beduíno terminou seu sorvete de casquinha e tirou um enorme cantil com a tampa crivada com um enorme rubi do meio das vestes, abriu, bebeu o que parecia ser água. Outro tranco do trem, o mais forte até então.

- Sabe o que realmente falta para compor um deserto?

Olhei pros lados procurando de onde vinha aquela voz profunda e poderosa. Mais ninguém parecia ouvi-la.

- Nada de escorpiões ou dunas ou camelos. Nem tapetes voadores.

Olhei para o beduíno no outro vagão e ele estava alongando o corpo, ainda com a cabeça curvada para baixo.

- Sabe, não que eu reclame do clima, dias assim fazem com que eu me lembre de casa. Mas isso não é natural.

Um zumbido extremamente incômodo atravessou os dois ouvidos, como se uma lâmina vibrasse perpassando o crânio. Senti alguma coisa escorregando pela testa. Naquele momento o incômodo era tamanho que havia fechado os olhos inconscientemente e contraído todos os músculos e ligamentos. Passei a ponta dos dedos no rosto e percebi que aquilo era areia. Abri os olhos e vi o beduíno diante de mim, sua sombra esmagando completamente a minha existência. Da cavidade da túnica onde estava seu rosto algo emitia um leve brilho.

- Casa. O que realmente falta, garoto, é uma tempestade…

As roupas ficaram pesadas e era extremamente difícil me manter em pé. Segurei nas barras de apoio do corredor, mas além do peso, algo me sugava para trás em direção aos outros vagões. O chão estava coberto de areia e meus tornozelos completamente enterrados, as outras pessoas eram arrastadas soterradas até o fim do trem com seus gritos abafados. A barra na qual eu me segurava já havia se soltado do chão, e então começou a se desprender do teto. Meu corpo estava parcialmente coberto e um a um os dedos escorregavam graças à dor dos milhares de grãos comprimidos nas unhas, na boca e nos olhos. As partículas riscavam a pele da palma da mão em contato com o metal, como se tudo aquilo fosse, na verdade, composto por minúsculos cacos de vidro.

Percebi que uma sombra imponente estava sobre o meu desespero. Ergui a cabeça com o resto das minhas forças e lá estava o beduíno. Ele estendeu o braço em minha direção e me puxou pela mão sem qualquer dificuldade, levantando meu corpo da areia e me erguendo dependurado pelo punho. Fixei involuntariamente minha visão nos vagões atrás do beduíno, e a partir do primeiro uma névoa de areia se aproximava cada vez mais rápido. Era uma tempestade de areia. Dentro de um túnel de metrô.

- Há um problema no véu. É isso – a voz não saía de seu rosto, se quer parecia emanar de qualquer parte do seu corpo, mas eu sabia que era o beduíno que estava falando.

- Sugiro que você se apresse e encontre o velho.

- Quem é você?

Com a mão livre, o homem puxou o tecido que cobria o rosto.

- Eu sou um Marid. Um djinn.


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Todos são sonâmbulos em Hollywood

sexta-feira, maio 18, 2012
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Todos são sonâmbulos em Hollywood. Na Augusta. No décimo segundo ladrilho debaixo da quilha do restaurante chinês na esquina com o boulevard. Enquanto você desce debaixo do seu casaco que deveria pesar duas toneladas e desliza a Pinheiros ou a número dezessete em direção ao meio fio do outro lado da rua e todas as outras pessoas são outros eus, mas na verdade não fazem nenhum sentido. As retinas estão escondidas e você não enxerga debaixo dos inúmeros graus de miopia dos cantos dos olhos, os vagabundos estão ali do lado fazendo a sorte com os pombos e corvos e rodas dos carros. Todos acabam raptando suas próprias crianças olhando as vitrines das lojas de brinquedo fechadas ao baforar ao meio dia com o filtro do cigarro queimando a ponta dos dedos e abastecendo o céu de novas nuvens que nunca serão donuts, mas sempre serão dinossauros e animais improváveis.

 Todos os sonâmbulos, todos os sonhos habituais e dizem por aí que não se pode acordar o resto do mundo que dorme encolhido em todos os trens de todos os metrôs e em todos os sapatos e chinelos. Todos são sonâmbulos em comerciais engraçados e notícias tristes enquanto os remédios pra dormir não fazem mais efeito e nem toda a platina no mundo serviria pra tapar os buracos das paredes, as vozes em paralelo e o absurdo é não lembrar dos talhos dos guarda-chuvas e perceber que a vida está dentro da vida que está dentro da vida que está em qualquer outra vida menos aquela que sempre se quis. Você perde seus isqueiros e se preocupa com o horário do cinema, derrapa nas curvas e se perde pra pedir informação quando está perdido. As sinfonias aparecem como um milhão de coxas e as borboletas no cio são todas as outras coisas que você sabe onde encontrar.

O poltergeist que revira seu armário normalmente aparece no espelho e você mal sabe que ele está lá, mesmo sabendo que ele nunca dorme enquanto você caminha por aí. Suas roupas estão em todos os lugares. E você não está ali. Não acorde os sonâmbulos. Todos são sonâmbulos em Holywood. Na Augusta. No décimo segundo ladrilho debaixo da quilha do restaurante chinês na esquina com o boulevard. . Enquanto você desce debaixo do seu casaco que deveria pesar duas toneladas e desliza a Pinheiros ou a número dezessete em direção ao meio fio do outro lado da rua e todas as outras pessoas são outros eus, mas na verdade não fazem nenhum sentido. E talvez o resto do mundo seja uma projeção do que você acha que ele deveria ser. O cosmos conspira nos átomos da sua respiração.

E agora você precisa forçar sua inspiração.


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Sobre bagos na terceira pessoa

quinta-feira, abril 19, 2012
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Uma vez das minhas incursões pra cima e pra baixo na Augusta entre conhecidos, conversas, abraços, cigarros, bebidas e palavrões, acabei sendo apresentado a uma blogueira “famosa” amiga de amigos. Ela é uma dessas pessoas que escrevem textos gigantescos carregados de figuras de linguagem e de um milhão de linhas, comparações líricas e viagens intimistas e bastante sentimentais pra narrar um peidinho.

- Eu já li o que você escreve.
- Ah, é?
- É. Um amigo de um amigo seu estudou comigo e me indicou.
- Entendi.
- É cru.
- Perdão?
- É cru. E bruto.
- Certo.
- É tipo um carvão.
- Carvão é algo bom?
- Não sei, mas dá pra virar diamante.
- Hm.
- Usando figuras de linguagem e
- Eu uso.
- É, mas não o suficiente. E você usa coisas decadentes.
- Decadentes?
- E sujas.
- Perdão?
- Ok. Cus, bocetas, paus. O que você quer dizer quando fala sobre eles?
- Sobre cus, bocetas, paus.
- Isso é feio.
- Você acha?
- Não necessariamente feio, mas é esteticamente feio. É escroto enfiar essas coisas no corpo de um texto.
- Imagine um ser humano. Você olha pra ele, certo?
- Certo.
- O que você vê?
- Ah, amor, tristeza, solid
- Não, não, descreva o corpo.
- Coração e
- Mais pra fora.
- Ah, olhos, boca, nariz, braços, pernas.
- O quê mais?
- Barriga, mãos, peitos, orelhas.
- Bagos.
- Isso. Pés, dedos e
- Cu.
- Cu.
- Não é tão decadente assim.
- Num texto é.
- Seres humanos são decadentes?
- Alguns são.
- Sei.

Outras pessoas chegaram e entre um silêncio constrangedor e outro decidi que deveria ir embora.

Mais tarde e sem dinheiro, sentado na beirada da calçada eu vi a mesma blogueira cheirando e tomando algumas coisas, dando o rabo às semiescondidas numa rua quase escura e achei que aquilo era transcendental. Não pra mim. Não pra ela. Não porque eu me achava agora superior por provar que existia isso ou aquilo outro. Mas era transcendental pros cus, bocetas, bagos, carreiras, garrafas. Amém.

Um gato preto com a orelha bastante machucada e com algumas pulgas subiu no meu colo. Mais cedo eu o vi sendo enxotado de outros lugares. Deixei ele ficar ali entre uma garrafa de cerveja e minha calça puída. Imaginei o que a blogueira diria sobre este pulguento agora. Ou até mesmo sobre o gato do meu colo.


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Calçada

quinta-feira, abril 12, 2012
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Às vezes venta de madrugada como se estivéssemos em plena tarde. E o contrário também acontece.

Acho que é porque em algum lugar é tarde ou madrugada.

Mas é bem longe. Não sei.

Um desses ventos coloca os cabelos dela na frente da maquiagem borrada.

Esse veio lá da Europa.

Europa?

Com certeza.

Se você diz.

Você sabe daquele negócio debaixo da Europa?

Aquele negócio?

É, aquele treco. Acelerador de

Acelerador de partículas.

Isso.

O que tem?

Como assim o que tem? Você sabe o que é?

Acho que sei. É mais um colisor de partículas.

Eu ouvi dizer que eles tão atrás de uma coisa em especial, deram até um nome.

Partícula de Deus?

Partícula de Deus.

Sei.

Não acha maluquice?

Deus?

Não, porra, o acelerador!

Ah, sei. Então.

Que é?

Não, não acho.

Porra, na real?

Na real.

Ela cruza as pernas, balança os pés e acende outro cigarro.

Eu ouvi dizer que eles podem criar um buraco negro nessa coisa.

Podem?

É, podem.

Sei. E aí?

E aí? Caralho, e aí que um buraco negro vai acabar comendo tudo que existe aos poucos e vai aumentar de tamanho até precisar comer coisas cada vez maiores e vai engolir tudo.

Tudo?

Tudo.

Aquele bar da esquina com o atendimento horrível, que vende cigarro amassado e cerveja meio choca só que barata?

Acho que sim.

Eu estalo os dedos e recoloco as mãos de volta nos bolsos do casaco.

Merda.

É só isso que você acha disso?

Na verdade não. Um buraco negro tão pequeno e daquelas proporções não teria força pra se sustentar e acabaria consumindo a si mesmo.

Na real?

Foi o que eu ouvi dizer.

Espero que você esteja certo. Mas é uma maluquice mesmo.

O acelerador?

A cerveja choca. É uma merda.

Eu sei.

Esse veio lá da Europa

Oi?


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Yellow paper

sábado, abril 7, 2012
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Se enquanto eu
transformasse todas as minhas intenções e intersecções em surtos  os buracos da minha
cabeça seriam ninhos de traça e meus olhos seriam livros velhos de um milhão e meio de palavras recheadas
de uivos imorais e citações babacas com suas longas baforadas e

punhetas de amor. Vou ensaiar uns passos de boxe e
bater umas palmas pra miséria humana

porque é dela que eu sou feito:
de
todas as traças.


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8 gramas de silêncio – parte 18

sábado, abril 7, 2012
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Senti uma pressão absurda no crânio enquanto a porta abria segurada pela mão com a cicatriz. Eu não deveria estar ali. Não poderia estar ali. Por mais que me esforçasse o máximo de resposta que obtinha do meu corpo era engolir seco, como se inúmeras bolas de gude descessem por minha garganta. Mexi os olhos procurando desviar a visão e me deparei com um elemento novo, uma pintura. Apertei os olhos e comecei a distinguir os traços inicialmente embaçados. Era ultrarrealista, muito semelhante a uma fotografia. Aquele lugar era familiar. Uma construção ao estilo greco-romano. Era similar a um templo, possuía alguns padrões circulares, mas ela estava inteira, como se o artista reconstruísse os pilares, paredes e pedras do que provavelmente ele imaginaria como eram na época em que ainda eram novos e imponentes. Do centro da construção algo semelhante a uma névoa subia sutilmente a partir do chão. Não havia pessoas, apenas a construção, vegetação, o céu escuro, escarpas do que pareciam serras ou montanhas e a tal névoa, como uma fumaça.

Tentei desviar os olhos, mas não conseguia. Havia um magnetismo me centrando para dentro da moldura, e a pintura em seu interior parecia crescer. Percebi que tudo se passava em câmera lenta e a mão, que demoraria não mais que alguns milésimos de segundos para empurrar a porta, parecia perdida no tempo. Acordei perto da desidratação, o corpo doendo pela falta d’água, a cama ensopada de suor. Não era verão. Bem longe disso. Alguma coisa estava bem errada. Fui até a cozinha e bebi o máximo de água que consegui pra depois passar vinte e poucos minutos sentado debaixo do chuveiro.  Aquele era o terceiro dia depois de ter tomado alguns vários comprimidos e os efeitos do calor exagerado eram superiores aos da suposta ressaca que eu sentiria ao acordar. O sonho fora logicamente amplificado. Eu revivi seus detalhes inúmeras vezes, com exceção da última vez, em que tudo parecia novo, principalmente o que realmente fora novo: a pintura. Ao sair o banho chequei o celular e o telefone. Não havia mensagens, ou ligações perdidas ou recados na secretária. Aquilo era reconfortador e ao mesmo tempo meio triste.

O gato havia ficado no banheiro, esticado no chão do box em cima da água fria enquanto ela não evaporava. Procurei na internet informações a respeito da onda insuportável de calor, mas só havia suposições e todos concordavam que era outra prova do agravamento do aquecimento global. Alguma coisa me dizia que não era tão simples assim. Primeiro o absurdo de chuva durante um bom tempo e agora a onda de calor que ameaçava derreter o concreto. Chequei os e-mails e fora as várias propagandas e ofertas de compra coletiva não havia mais nada. Mesmas coisas nas redes sociais. Mesmas coisas em todos os lugares. Mas ao mesmo tempo em que tudo se mostrava o mesmo, eu sentia que algo grande estava acontecendo. E algo muito pior estava pra acontecer. Decidi ligar pra Camila pra pedir desculpas e explicar a situação. Tentei algumas vezes. Rediscar. Camila? Oi, sou eu. É, eu sei, desculpa, desculpa mesmo. O quê? A polícia? É… você sabe. Pois é, suspeito. Você veio aqui e te explicaram. Certo. E expulsaram. Já imaginava. Sair? Agora? Não, não, estou livre. Onde? Se eu conheço algum lugar? Faz assim, eu vou tomar outro banho e te ligo já dizendo onde. Pois é, o calor. Tá foda. Tá bom. Ligo já.

Procurei notícias sobre a faculdade. As aulas voltariam em breve. Mas aquele não era o melhor momento pra voltar pra lá. Tranquei a matrícula e imprimi o documento que eu deveria validar na secretaria principal do campus. Eu tinha muito mais que me preocupar do que as coisas que eu não queria fazer. Procurei por lugares que servissem comida e café minimamente aceitáveis. Passarem-se alguns minutos e não havia nada de bom. Desisti de procurar. Marcaria com Camila em alguma estação e de lá procuraríamos um lugar legal. Desliguei o monitor e apoiei os braços na mesa pra levantar da cadeira. Senti uma pressão muito forte no crânio e caí de volta na cadeira. A imagem da pintura me veio à mente como um flash batido no escuro. Vomitei no balde de lixo e fiquei encarando o chão durante alguns instantes enquanto a visão turva voltava ao normal. Alguma força magnética me atraiu ao monitor mais uma vez. Liguei e abri o navegador, procurei por pinturas que retratavam o greco-romano.

Deuses. Musas. Heróis. Construções. Templos. Procurei um por um até finalmente encontrar o que estava procurando. Mas não era similar à imagem do sonho, era uma cópia barata. A pintura não era ultrarrealista e a estrutura do lugar estava em escombros. Mas com certeza era o lugar. Referências da imagem. Delfos. Delfos? O telefone tocou de novo. Se eu já descobri algum lugar? Lembrei que o endereço que Ramirez havia me passado era de uma lanchonete. Procurei pelo papel na escrivaninha. Camila? Então, conhece uma lanchonete chamada Marina’s Lanches? Não, eu também não, mas me indicaram. Fica no Manoel Fócida. Ah, você sabe onde fica essa rua? Certo. Melhor nos encontrarmos na estação. Qual o nome da estação mais próxima dessa rua? Espera, eu vou olhar aqui. Joguei o endereço em um mapa online. Estação, estação, estação. Delfos. Senti um zumbido dentro da cabeça. Vomitei mais uma vez no lixo. Camila? Não, eu tô bem, só uma tosse chata. Não, não vomitei. Vou sair agora de casa. Onde nos encontramos? Estação Delfos.

Fui correndo pro chuveiro e vomitei mais duas vezes. Tomei banho e me vesti da melhor maneira que pude. Tomei remédio pra azia e bebi mais meio litro d’água. Estava praticamente ensopado assim que fui encher a vasilha do gato, que estava deitado na janela, esticado da melhor maneira que podia e com o rabo balançando enroscado com a cortina. Lavei o rosto, escovei os dentes, peguei o balde de lixo e enrolei em vários sacos plásticos e o joguei em um grande tonel ao lado do prédio. Andei até o banco e tirei um pouco de dinheiro. Comprei uma garrafa d’água no caminho e completei o percurso até a estação mais próxima sentindo que toda a água do meu corpo havia sido eliminada pela transpiração, e grande parte do suor das roupas já havia evaporado. Comprei mais duas garrafas d’água até finalmente descer as escadas pra pegar o trem. Chequei o mapa na parede sentindo o suor na sola do pé, entre a pele e a borracha do chinelo. Fazia tempo que não saía de casa de bermuda e chinelo. Fazia tempo que nada me incomodava tanto quanto aquela sensação de alguma coisa que estava por vir.


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8 gramas de silêncio – parte 17

segunda-feira, abril 2, 2012
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Ele abriu um grande armário de mogno e inseriu um LP no aparelho, posicionando a agulha cuidadosamente sobre uma linha pré-determinada, numa faixa pré-determinada, que de tão executada já estava mais gasta que os demais sulcos da bolacha. Filarmônica de Berlin. Ele abriu outras portas revelando várias caixas de som. Os estalos da reprodução estouravam distantes como o som de milhares de árvores mastigando os galhos contra o vento, explodindo suas folhas como a respiração asmática da vida. Waldweben, fragmentos do segundo ato de Siegfried. Os instrumentos levantavam ao fundo junto ao corpo do próprio Siegfried diante da carcaça do dragão. O homenzinho de pele bastante envelhecida e seus óculos de armação que lhe escondiam as sobrancelhas conduziu o movimento em direção a outro cômodo da casa, abrindo as portas com o peso das costas e abrindo mais armários revelando mais caixas de som espalhadas.

No terceiro quarto a partir do corredor o homenzinho calçou luvas de borracha extremamente grossas, colocou uma caixa com algumas seringas grandes debaixo do braço e refez o caminho regendo Siegfried bebendo o sangue do dragão e descobrindo que poderia entender o que os pássaros diziam. Conforme andava e regia o sorriso do homenzinho tornava-se mais leve e evidente, escondendo os cantos da boca na parte inferior da armação dos óculos. Abriu um dos únicos armários fechados até então, revelando uma escadaria que partia do fundo falso. Ao descer dois andares abaixo chegou a um lugar semelhante às piores masmorras de Lovecraft, como se todos os traços fossem realmente depositados nas pedras, padrões, maus cheiros e sensações terríveis. Luzes automáticas acendiam a partir dos cantos da escadaria e do corredor, amplos, pesados, ameaçadores. O movimento estava no fim e o homenzinho regia os momentos finais em direção à grande porta de ferro maciço, liberando o mecanismo e fazendo a coisa toda subir. Do outro lado alguma coisa reagiu.

-Você gosta?

O homenzinho sorriu aproximando-se do vão da grande porta.

-É Wagner! Wilhelm Richard Wagner.

A coisa rugiu com o máximo de força que pôde enquanto o homem gargalhava, até que o som da risada encobriu o eco do rugido.

-Waldweben. Acho que…. sim, “Floresta tecendo”. Algo assim. Você gosta?

O chão estremeceu várias vezes e o homenzinho continuou rindo enquanto depositava a caixa das seringas em uma mesa de metal dentro do salão além da porta. Seus movimentos ressoavam pelo salão, mesmo o trincar de seus dentes. Agachou diante da mesa e puxou um grande painel. Apertou alguns botões e estalou os dedos no ar.

-Ah, sim, sim. Götterdämmerung.

A coisa rugiu de novo, dessa vez mais baixo, mas com a mesma ferocidade de antes.

-O crepúsculo dos deuses. Wagner.

Apertou mais botões e cliques mais ou menos altos ecoavam pelos cantos da sala. Os estalos recomeçaram, mas agora eram mais graves, como se partissem do fundo da garganta de uma besta exaurida. Era outra música. O homenzinho destravou as rodas da mesinha de metal e puxou com um dos braços, enquanto o outro regia a partir do topo de sua cabeça. O tilintar das rodas no chão de pedra parecia pertencer à música, e ressoava assustadoramente.

- Você.

O homenzinho retirou um controle da gaveta e apertou o segundo dos cinco botões, fazendo com que um rugido monstruoso, mais alto e ameaçador que qualquer som explodisse pelo salão.

- Você.

O homenzinho continuou regendo com a mão esquerda enquanto segurava o controle com a mão direita. Apertou o terceiro botão. Som de correntes pesadíssimas sendo arrastadas pelo chão cortaram alguns instrumentos, mas mais uma vez, o som parecia pertencer à música, como se tudo que o homenzinho franzino fizera até então tivesse algum papel fundamental no encaminhamento da peça. Rugido de fúria e dor.

- Este é o ponto alto da música.

O homenzinho apertou o quarto botão e o restante das luzes acendeu iluminando o salão a partir de setores, em linhas de refletores que partiam dos cantos e convergiam para o meio. Enquanto a música flamejava das caixas de som, encobrindo todos os sons da criatura, o velho pegou a maior das seringas com a mão esquerda e preencheu o êmbolo com sedativo, apertou o primeiro botão e a criatura caiu de joelhos no chão, suas asas presas por enormes grilhões que partiam do teto tentavam bater em agonia. Ele se aproximou e injetou todo o sedativo na base do pescoço da besta. Sua cauda, também presa por uma grande argola de aço e correntes presas no chão, começou a relaxar e aliviar os pontos de articulação. Quinto botão. A argola travou na ponta da cauda e fechou em um cilindro de metal. O veneno começou a fluir e preencher o cilindro aos poucos. O homenzinho deu a volta ao redor da criatura empurrando a mesa móvel à sua frente em direção ao cilindro. Abriu a tampa e mergulhou a agulha das seringas, uma a uma, preenchendo os êmbolos com o conteúdo.


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Quando não se consegue levantar e os fósforos estão queimando no quintal

sexta-feira, março 30, 2012
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Acordar surpreso por se estar vivo, pelado e com o corpo de milhões de anos abandonado sob a gravidade de um buraco qualquer faz a gente pensar. A vida parecia um acidente erótico, uma explosão cósmica de cus, cabelos, bagos, bocetas, milhões de olhos disparando alucinações alcóolicas contra as paredes do fim do mundo. As unhas rasgando cortinas e os dentes mastigando poeira. Dentro do quarto eu flutuava entre a cama, a janela e o banheiro, trocando as pernas como se fosse, desde já, um velho boxeador perdido, mostrando os golpes imaginários enquanto não desmoronava em frente ao espelho.

Meu Deus, eu pensava, olhando pela janela a partir do chão frio e as letras coloridas estilhaçando luz na minha cara, imaginando os milhares de anjos mancos e caolhos e cegos e bêbados e seus corpos apodrecidos queimando desesperadamente e as pelotas brancas em suas narinas e o sangue ebulindo em suas veias e as úlceras, medos e cânceres, as asas em ruínas com as pernas partidas e amareladas. Todos os mendigos tinham os rostos de todos os profetas e suas visões de loucura eram do Cristo na sarjeta e as orações silenciosas dos cafetões, viciados, assassinos, putas e ladrões e dos pratos quebrados e dos restos de comida.

E eu pensava em dores de cabeça e ossos quebrados, pensava em todas as mulheres do mundo, todas as mulheres do meu mundo, capazes de me fazer sentir partido ao meio e sozinho, indo e voltando rodando os calcanhares e pisando em cacos de vidro com as pontas dos pés. Cada uma era especial, a maneira como reduziam meu nome a uma única sílaba, ou as vozes estranguladas, doces e vazias. Os gemidos, os gritos, os cortes e machucados. E o sexo sempre era bom.  De um jeito ou de outro o universo estava fodendo muita gente. Assim nascem e morrem milhões de estrelas, os sinos dobram e as catedrais e gritos abafados desabam do topo das montanhas, seus calos enterrados sob a luz dos letreiros.


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Todas as estradas levam pra lugar nenhum

segunda-feira, março 26, 2012
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Apaguei meu último cigarro no cinzeiro estilhaçado do balcão em um dos últimos bares do universo em que se podia fumar dentro. Virei a bebida e comecei a brincar com as pedras de gelo com o rosto enfiado no copo olhando coxas pelo canto dos olhos.

Preciso de férias.

Olhei pro lado ainda de focinho enfiado no copo. Um tipo de mais ou menos um e setenta e cabelos recortados pra trás, terno surrado e gravata afrouxada, olhos cheios de lágrimas e o rosto vermelho.

Preciso de férias.

Preciso de um cigarro. E uma chupada não cairia mal. Todos precisam de alguma coisa.

O barman encheu mais uma vez meu copo e colocou um pro sujeito ao meu lado, que me passou um cigarro.

Obrigado. Não espero que você me chupe.

Ele engasgou levantando o dedo do meio e ficamos em silêncio ouvindo uma briga do lado de fora. Virei outros copos, outras mulheres passaram por perto.

Você acredita em Deus? Ainda era o sujeito de gravata.

Só quando preciso ir ao banheiro da igreja e os bares estão fechados. Por quê?

Tenho pensado em me matar.

Sei.

Mas até então minha relação com Deus não me permite.

Como?

Quem se mata não é abençoado pelo padre e vai pro inferno direto, sem escala.

Sei.

Você já pensou em se matar?

Já me matei algumas vezes.

Como é que é?

Vou pro inferno todos os dias e sem escala.

Você é maluco.

Você precisa de um drinque.

Acho que sim.

Bati os dedos no balcão e pedi pro barman servir uma dose pra cada. O sujeito agradeceu e começou a bebericar pelas bordas.

Me arranja uma puta?

Sua religião não permite.

Nunca disse que era religioso.

Não disse que era cafetão.

Vai se foder.

Termine seu drinque primeiro.

Pedi pela garrafa, completei seu copo e comecei a tomar do gargalo.

Vai me arranjar uma puta?

Preciso de férias.


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sábado, março 24, 2012
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